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O procurador-geral do Distrito Federal, Márcio Wanderley, emitiu um parecer crítico à proposta do governo do DF de contrair um empréstimo junto ao Fundo Garantidor de Créditos (FGC) para enfrentar a crise do Banco de Brasília (BRB). O documento foi assinado dias antes de Márcio Wanderley pedir para deixar o cargo, nesta quarta-feira (15), e levantou dúvidas sobre a legalidade e os riscos da operação.
No parecer, a Procuradoria-Geral do DF apontou potencial infração a dispositivos da Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF), além de indicar uma possível confusão entre o patrimônio do BRB e o do próprio governo do DF, controlador do banco. Entre os pontos citados estão os artigos 32 e 42 da LRF, que tratam dos critérios para que governantes contratem empréstimos e da proibição da contratação nos últimos oito meses de mandato.
A Câmara Legislativa do DF autorizou o governo a usar imóveis públicos como garantia para um empréstimo de até R$ 6,6 bilhões junto ao FGC. Apesar da autorização, ainda não foi formalizada a criação do fundo imobiliário previsto para respaldar a operação. O governo inicialmente solicitou R$ 4 bilhões, mas recentemente passou a considerar o valor de R$ 6,6 bilhões, enquanto investidores especulam que a necessidade financeira pode ser maior.
Segundo o parecer, o BRB solicitou uma análise jurídica para formalizar o pedido de empréstimo, mas a Procuradoria questionou a legitimidade do banco para essa consulta, já que o BRB possui consultoria jurídica própria e não integra a administração direta do DF. O documento reforçou que, caso o governo queira assumir a obrigação do empréstimo, deve fazê-lo com clareza, baseando-se em fundamentos normativos e societários.
O artigo 32 da LRF estabelece a necessidade de demonstrar o custo-benefício da operação e comprovar o interesse econômico e social para realização do empréstimo, além de respeitar limites de endividamento. O DF tem atualmente avaliação fiscal baixa, com destaque negativo para a “poupança corrente”, que indica o espaço financeiro para investimentos ou pagamento de dívidas.
O artigo 42 da mesma lei proíbe governantes de contrair empréstimos nos últimos oito meses do mandato, para evitar que a responsabilidade financeira seja repassada à gestão seguinte. Portanto, se o empréstimo for firmado após 1º de maio, a atual gestão deverá garantir o pagamento até o final de 2026 ou reservar recursos para isso.
Além das questões legais, a Procuradoria enfatizou que documentos do BRB indicam uma confusão entre as responsabilidades e patrimônios do banco e do governo do DF. O parecer afirmou que não está claro quem seria o contratante e responsável econômico da dívida, ressaltando que embora o FGC permita que o acionista controlador contrate empréstimos, o governo não pode assumir essa condição automaticamente sem base jurídica apropriada.
O parecer também criticou a contratação de assessoria jurídica para o processo, apontando falta de clareza sobre quem arcará com os custos. A Procuradoria ressaltou que a transferência do ônus ao DF exige base jurídica específica, demonstração de interesse público e conformidade com as regras societárias e orçamentárias, elementos ausentes nos documentos avaliados.
Diante das inconsistências, a Procuradoria não emitiu um posicionamento definitivo sobre a regularidade do pedido de empréstimo. O documento destacou que qualquer manifestação precisaria de uma base factual e documental mais sólida para garantir segurança jurídica.
Nesta quinta-feira (16), o governo do DF indicou Diana de Almeida Ramos como nova chefe da Procuradoria-Geral, em substituição a Márcio Wanderley. Diana é servidora de carreira, subprocuradora-geral e tem laços próximos à família Bolsonaro, relação reforçada pela governadora Celina Leão, que se declarou “amiga pessoal” do ex-presidente Jair Bolsonaro.
A nomeação ainda precisa passar por sabatina e aprovação na Câmara Legislativa do Distrito Federal. Devido ao feriado no dia 22, a confirmação pode ocorrer apenas no início de maio, quando deverá assumir oficialmente a chefia da Procuradoria.
O governo do DF não respondeu às perguntas do g1 sobre o teor do parecer e a saída de Márcio Wanderley. A crise do BRB, agravada nos últimos anos, permanece sem solução final, enquanto a tramitação do empréstimo ao FGC continua sob questionamento jurídico e político.
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Palavras-chave relacionadas: Procurador-Geral do Distrito Federal, empréstimo BRB, Fundo Garantidor de Créditos, crise Banco de Brasília, Lei de Responsabilidade Fiscal, Márcio Wanderley, governadora Celina Leão, Câmara Legislativa do DF, patrimônio público, dívida pública, gestão fiscal Distrito Federal, Diana de Almeida Ramos, operação de crédito, risco fiscal.
Fonte: g1.globo.com
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Fonte: g1.globo.com