A carne de burro começou a ganhar espaço na Patagônia

A carne de burro começou a ganhar espaço na Patagônia, Argentina, em meio ao aumento dos preços da carne bovina, refletindo mudanças nos hábitos de consumo em um contexto de alta inflação e recessão econômica. Em Trelew, a iniciativa “Burros Patagônicos” oferece carne de burro em açougues e restaurantes, como alternativa mais barata à tradicional carne bovina.
O projeto piloto, criado pelo produtor rural Julio Cittadini, aprovou o consumo da carne de burro pelas autoridades sanitárias locais e nacionais após cerca de dois anos de desenvolvimento. Em Trelew, pratos como empanadas, churrasco e linguiças feitos com carne de burro atraíram clientes e tiveram boa aceitação no restaurante Don Pedro.
A carne de burro é vendida por cerca de 7.500 pesos o quilo (aproximadamente R$ 27), quase três vezes mais barata que a carne bovina, que pode atingir 18 mil a 19 mil pesos (R$ 65 a R$ 69) por quilo na mesma região. A baixa no poder de compra da população tem impulsionado a busca por alternativas mais acessíveis, segundo proprietários locais.
Especialistas afirmam que o consumo de carne de burro ainda é pontual e não impacta significativamente a produção ou o mercado local. No entanto, a novidade revela tendências mais amplas no comportamento dos consumidores, diante da queda na renda e da pressão da inflação, que acumula alta de 9,4% no ano.
O Instituto Nacional de Estatística e Censos (INDEC) aponta que carnes e derivados foram alguns dos alimentos que mais subiram de preço recentemente. Na Grande Buenos Aires, o preço da carne subiu 55% em 12 meses, chegando a 61,5% no Noroeste do país, reduzindo o consumo da carne bovina.
Dados indicam que o consumo da carne bovina caiu cerca de 10% no primeiro trimestre de 2024, atingindo o menor nível em duas décadas. Atualmente, o consumo total de carnes por pessoa é de cerca de 115 a 116 quilos por ano, com a participação dominante do frango e da carne suína aumentando, enquanto a carne bovina diminui.
O produtor Julio Cittadini ressalta que o projeto do burro como alternativa não foi criado como resposta direta à crise econômica, mas sim às dificuldades climáticas e ambientais da região que prejudicam a pecuária tradicional. O burro apresenta maior resistência ao clima e relevo da Patagônia, característica valorizada no projeto.
Cittadini mantém atualmente cerca de 150 burros e planeja ampliar o rebanho para atender o mercado local da província de Chubut. O Serviço Nacional de Sanidade e Qualidade Agroalimentar (Senasa) informou que o consumo de carne de burro não é habitual nem proibido no país, não havendo registros de exportação dessa carne.
A Argentina enfrenta uma profunda mudança estrutural na economia, com crescimento em setores como energia e mineração, que geram divisas, mas não absorvem mão de obra. Indústrias como comércio e construção registram retração e perdas significativas de empregos, segundo a União Industrial Argentina (UIA).
A inflação elevada e a deterioração do mercado de trabalho estão entre os principais desafios econômicos do país. A alta dos preços contribui para a perda do poder de compra e alteração nos hábitos de consumo, reforçando a busca por alternativas mais acessíveis como a carne de burro.
O presidente Javier Milei destacou a inflação como questão central e pediu paciência à população, afirmando que a situação deve melhorar. Apesar das projeções de crescimento do Banco Mundial para 2026 e 2027, especialistas alertam que o avanço econômico será desigual e impactará diferentes setores de forma distinta.
A experimentação com carne de burro na Patagônia evidencia, assim, como as mudanças econômicas podem alterar hábitos culturais profundos na Argentina, tradicionalmente ligada ao consumo de carne bovina.
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Fonte: g1.globo.com
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Fonte: g1.globo.com