Elon Musk e Sam Altman
Getty Images via BBC
A amarga rivalidade entre Elon Musk e o CEO da OpenAI, Sam Altman, já dura anos, mas tem se manifestado principalmente nas redes sociais na forma de acusações, respostas e provocações.
Na segunda-feira (27), Musk voltou a atacar Altman em uma publicação no X, chamando-o de “Scam Altman” (Altman golpista, em tradução livre).
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Contudo, desde a terça-feira (28), o confronto entre os bilionários da tecnologia passou a ganhar um palco de maior repercussão: um tribunal federal na Califórnia, onde a disputa deve concentrar atenções em um julgamento com duração de um mês.
O tribunal vai analisar a ação movida por Musk, que acusa Altman — com quem cofundou a OpenAI — de tê-lo enganado em milhões de dólares e de ter traído a missão original sem fins lucrativos da empresa responsável pelo ChatGPT.
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O próprio Musk e Altman estão entre os que devem depor em um caso no qual o futuro da inteligência artificial pode estar em jogo. E, embora um deles deva sair vencedor, é bem possível que nenhum dos dois saia ileso.
A batalha já foi comparada a dois boxeadores pesos-pesados subindo ao ringue. Um observador, inclusive, a descreve como um confronto entre King Kong e Godzilla.
“Musk e Altman são figuras gigantescas, colossais e tão distantes da realidade cotidiana”, afirma Sarah Federman, professora da Universidade de San Diego e especialista em resolução de conflitos.
“E é justamente isso que torna tão fascinante assistir enquanto entram em choque.”
Um júri composto por nove pessoas, que prestaram juramento na segunda-feira, ajudará a definir o desfecho do caso sob a supervisão da juíza Yvonne Gonzalez Rogers.
A magistrada afirmou que a enorme riqueza, o poder e a fama que Musk e Altman levam ao tribunal federal de Oakland não lhes garantirão “nenhum tratamento especial”.
Musk também entrou com ações contra a OpenAI, seu cofundador e presidente Greg Brockman, além da Microsoft, que, segundo ele, ajudou no plano de monetizar a empresa.
A Microsoft, no entanto, nega as acusações.
Musk pede bilhões de dólares no que seus advogados chamam de “ganhos indevidos”, valor que ele quer destinar ao financiamento do braço sem fins lucrativos da OpenAI, além de mudanças na empresa, incluindo a saída de Altman.
A OpenAI, por sua vez, afirma que Musk é movido por inveja e arrependimento por ter deixado a empresa.
E, com a corrida rumo à inteligência artificial geral (AGI) avançando a todo vapor, a empresa acusa Musk de tentar atrapalhar um de seus principais concorrentes.
A origem da briga
Musk e Altman cofundaram a OpenAI em 2015 como uma organização sem fins lucrativos, com a missão de garantir que a AGI beneficiasse toda a humanidade.
A AGI é, em termos gerais, definida como uma inteligência artificial capaz de superar a inteligência humana.
Na época da fundação da OpenAI, Musk já era uma figura de enorme destaque. Era visto como um tecnólogo incansável que, à frente da Tesla, ajudou a popularizar os veículos elétricos, enquanto desenvolvia tecnologias inovadoras de foguetes reutilizáveis na SpaceX.
Altman, por sua vez, era bastante conhecido dentro do Vale do Silício, embora ainda pouco fora dele. Como líder da influente incubadora Y Combinator, suas opiniões — frequentemente publicadas nas redes sociais, em tom quase oracular — eram acompanhadas de perto por fundadores de startups.
Os dois foram apresentados por um investidor do Vale do Silício em 2012. Altman, então na casa dos 20 anos, e 14 anos mais jovem que Musk, acabou apresentando a ideia da OpenAI ao empresário.
O desenvolvimento responsável da inteligência artificial era um dos pilares centrais da proposta.
Dentro da OpenAI, os dois mantiveram uma relação cordial, unidos pela crença no potencial da tecnologia.
Durante uma participação conjunta em uma conferência em 2015, Musk afirmou que a IA era a tecnologia que “mais poderia transformar a humanidade”, mas alertou que também era “realmente obscura” e “repleta de desafios”.
Mas o que começou como uma organização sem fins lucrativos acabou sendo transformado em uma entidade com fins lucrativos — de forma ilegal, segundo Musk.
Já a OpenAI afirma que, em 2017, houve um acordo entre Musk e os demais envolvidos de que a criação de uma estrutura com fins lucrativos seria o próximo passo lógico “para avançar a missão”.
A empresa diz que rejeitou a proposta de Musk de assumir o cargo de CEO com “controle absoluto”.
Musk deixou a OpenAI em 2018, após uma disputa de poder com Altman.
“Pessoal, já me cansei disso”, escreveu Musk em um e-mail alguns meses antes de sua saída.
“Ou vocês seguem por conta própria ou continuam com a OpenAI como uma organização sem fins lucrativos. Não vou mais financiar a OpenAI até que haja um compromisso firme de vocês em permanecer assim, ou então serei apenas um tolo basicamente bancando gratuitamente a criação de uma startup.”
Em 2022, a OpenAI deu início à revolução da IA voltada ao consumidor com o lançamento do ChatGPT, que rapidamente ganhou popularidade e alcançou 100 milhões de usuários ativos mensais em poucos meses.
Desde então, Musk criou sua própria startup de inteligência artificial, a xAI, responsável pelo chatbot Grok, que ficou atrás dos concorrentes.
Ao entrar com a ação em 2024, Musk alegou que a OpenAI havia se desviado de sua missão original e passado a priorizar a “maximização de lucros” para a Microsoft.
Ele afirmou ter doado cerca de US$ 40 milhões à OpenAI, após ter sido manipulado pelos envolvidos, que, segundo ele, o traíram ao tentar transformar a organização em uma entidade majoritariamente com fins lucrativos.
Batalha de titãs da tecnologia
Desde que a ação foi movida, a animosidade entre Musk e Altman tem vindo a público com frequência.
No ano passado, Musk e um consórcio de investidores ofereceram US$ 97,4 bilhões para comprar os ativos da OpenAI.
A empresa havia sido avaliada em US$ 157 bilhões em uma rodada recente de financiamento (e agora se aproxima de uma possível abertura de capital, ou IPO, com valor estimado em cerca de US$ 850 bilhões).
“Vigarista”, retrucou Musk em um comentário na publicação.
O interesse de Musk em comprar a empresa pode acabar confundindo o cenário do julgamento, afirma Dorothy Lund, professora da Faculdade de Direito da Universidade de Columbia.
“Musk já tentou assumir o controle da OpenAI várias vezes. Foi rejeitado”, disse à BBC.
“Por isso, não é absurdo pensar que suas motivações possam ser um pouco questionáveis neste caso. A própria juíza responsável pelo processo, Yvonne Gonzalez Rogers, já chamou atenção para isso.”
Detalhes pitorescos
Também é esperado que o tribunal ouça o depoimento do CEO da Microsoft, Satya Nadella, dos ex-cientistas da OpenAI Mira Murati e Ilya Sutskever, e da ex-integrante do conselho da OpenAI Shivon Zilis, que é mãe de quatro dos filhos de Musk.
Nos preparativos para o julgamento, vieram à tona detalhes curiosos da vida privada dos bilionários envolvidos, enquanto seus advogados travam disputas acaloradas sobre quais provas e testemunhos devem ou não ser apresentados ao júri.
Por exemplo, a juíza decidiu que não será permitido mencionar no tribunal o suposto uso, pelo chefe da Tesla, de “rhino ket” — como a ketamina é chamada na gíria do Vale do Silício.
A equipe jurídica de Musk também virou notícia. Um de seus advogados tem trabalhado como palhaço nas horas vagas, segundo o Business Insider.
Outro, que também atua como produtor em Hollywood, teve o perfil publicado recentemente pela revista Vanity Fair.
O que está em jogo
O que está em jogo neste caso é de grande magnitude para Musk e para a OpenAI — e, potencialmente, para todos nós.
No fim de 2023, Musk defendia uma pausa no desenvolvimento da inteligência artificial.
Em meio a essa onda de preocupação com o ritmo acelerado dos avanços tecnológicos, Altman chegou a ser afastado temporariamente do cargo de CEO da OpenAI, após suspeitas de que teria enganado membros do conselho.
Agora, com a xAI — empresa que foi recentemente adquirida pela SpaceX, sua companhia de foguetes que se prepara para abrir capital —, Musk está profundamente envolvido na corrida rumo à inteligência artificial geral (AGI).
“Se Musk vencer, isso pode significar a derrota de um concorrente-chave na corrida pela AGI”, afirmou Rose Chan Loui, diretora executiva do Centro Lowell Milken de Filantropia e Organizações Sem Fins Lucrativos da UCLA.
“Quem vencer essa corrida terá um enorme poder.”
Chan Loui avalia que Musk tenta se posicionar como a pessoa mais adequada para representar, de forma justa, os interesses da OpenAI enquanto organização sem fins lucrativos.
“Embora eu reconheça que ele trouxe visibilidade ao tema, há preocupação de que não seja imparcial, já que lidera sua própria e grande empresa de IA”, disse.
Para Sarah Federman, autora do livro Corporate Reckoning, a credibilidade de quem move esse tipo de ação é um fator central.
O julgamento entre Musk e Altman ocorre justamente no momento em que o público começa a compreender melhor como a inteligência artificial está sendo integrada ao dia a dia.
Ambos foram pioneiros em levar essa tecnologia ao grande público.
O processo pode lançar nova luz sobre suas ambições e intenções em relação ao desenvolvimento de uma tecnologia que já é utilizada por uma parcela crescente da população mundial.
Em King Kong contra Godzilla, “todos os mortais lá embaixo tentam escapar enquanto esses gigantes se enfrentam”, diz Federman.
“No fim, um vence, mas o que fica é um rastro com o qual o resto de nós terá de conviver.”
Fonte: g1.globo.com
Imagem: s2-g1.glbimg.com
Fonte: g1.globo.com

