O filme “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça

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O filme “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho, e o documentário “Ainda Estou Aqui”, de Walter Salles, trouxeram à tona debates sobre a ditadura militar brasileira (1964-1985), destacando o impacto psicológico e social do regime autoritário. O psicanalista Rafael Alves Lima, professor da USP e autor de estudos sobre o tema, afirma que a ditadura usava a “difusão psicológica do terror como princípio fundamental”, silenciando e intimidando a população.

Durante a ditadura, o silêncio era imposto pelo medo, gerando angústia e autocensura, segundo Lima. Falar e escutar eram perigosos diante da constante vigilância e repressão. Essa situação provocou sofrimento psíquico profundo, marcado pela desesperança e retraimento subjetivo. Para o especialista, a escuta e o reconhecimento dos traumas vividos são fundamentais para a reparação e a construção da memória histórica.

A tortura, destacou o psicanalista, desorganiza a percepção do tempo e do corpo, causando uma dissociação que funciona como mecanismo de sobrevivência. Já o desaparecimento forçado cria um luto inconcluso ao privar familiares dos rituais simbólicos essenciais para a elaboração da perda. Lima compara essa situação às dificuldades enfrentadas durante a pandemia de covid-19, quando muitas famílias também foram impedidas de se despedir de entes queridos.

O pesquisador ressalta que a violência do regime ultrapassava os militantes opositores e atingia pessoas sem envolvimento político, como professores e cidadãos críticos, sem violência organizada. O filme “O Agente Secreto” exemplifica essa arbitrariedade, mostrando que a repressão alcançava indistintamente indivíduos por capricho ou para manter o clima de terror, com participação de setores civis alinhados ao regime militar.

A percepção da violência estatal amplia-se atualmente, com filmes e debates que alcançam diversos grupos sociais antes pouco contemplados nas narrativas oficiais. Lima destaca que a violência de Estado brasileira tem raízes históricas profundas, desde a escravidão, e continua a se manifestar hoje na violência policial contra população negra e periférica. Ele aponta continuidade entre as tecnologias de repressão da ditadura e os métodos contemporâneos de controle social.

O psicanalista critica também a interrupção dos processos de memória e justiça, como a extinção temporária da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos. Ressalta que a memória é complexa e fragmentada, e o esquecimento de traumas pode funcionar como mecanismo protetor, mas a ausência de reconhecimento oficial alimenta a perpetuação do sofrimento coletivo.

Para Lima, a violação dos direitos pelo próprio Estado causa um rompimento profundo na confiança social, configurando um descompasso estruturante entre a autoridade e a proteção esperada pelo cidadão. Ele reforça que a suposta “pacificação” pelo esquecimento é uma falsa equivalência que impede a reparação e mantém a impunidade dos agentes da repressão.

A experiência das Clínicas do Testemunho, projeto do qual Lima participou, evidencia a importância da escuta dos sobreviventes e familiares para a elaboração do sofrimento. O silêncio imposto pelo regime pôde ser rompido por meio dessas práticas, que encaram o sofrimento como parte da história social e política. Contudo, os retrocessos recentes enfraqueceram iniciativas de reparação e memória.

A relação entre o sofrimento durante a ditadura e a crise política atual também é destacada pelo psicanalista. Ele associa a negação da ciência e o negacionismo no enfrentamento da pandemia de covid-19 a um déficit democrático, que abala a confiança da população nas instituições e fragiliza o tecido social. O rompimento dessa confiança tem efeitos psíquicos profundos, ampliando o medo e a insegurança coletivos.

Por fim, Lima defende que os profissionais da escuta têm o compromisso ético de considerar o contexto histórico e social do sofrimento, promovendo a emancipação dos sujeitos em vez da adaptação passiva ao sofrimento. Ele alerta para os riscos da domesticação e conformismo perante regimes autoritários e destaca a importância da resistência e da liberdade na produção do sentido.

Os filmes brasileiros recentes contribuem para ampliar a compreensão dos efeitos da ditadura e estimular o debate público sobre memória, justiça e reparação. Segundo o psicanalista, reconhecer e enfrentar esse passado é condição essencial para evitar repetições e fortalecer a democracia.

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Fonte: g1.globo.com

Imagem: s2-g1.glbimg.com


Fonte: g1.globo.com

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