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Mulheres negras seguem na base da desigualdade, segundo

Mulheres negras seguem na base da desigualdade, segundo
  • Publishedmaio 14, 2026

Mulheres negras seguem na base da desigualdade, segundo o Índice de Justiça Econômica Racial (IJER)

Feepik

Apesar dos avanços do Brasil nos últimos anos em áreas como educação, distribuição de renda e inclusão social, as desigualdades raciais e de gênero continuam profundas no país, especialmente para as mulheres negras.

Entre 2016 e 2023, elas ganharam, em média, cerca de metade da renda dos homens brancos no país.

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Os dados fazem parte do Índice de Justiça Econômica Racial (IJER), divulgado nesta quinta-feira (14) pela Fundação Grupo Volkswagen em parceria com o Fundo Agbara, instituição de apoio às mulheres negras do Brasil.

💰Em 2016, por exemplo, a renda domiciliar per capita (valor médio por pessoa no domicílio) das mulheres negras era de R$ 862,98, enquanto a dos homens brancos chegava a R$ 1.821,55.

💰Em 2023, a diferença permaneceu praticamente: R$ 1.191,66 para mulheres negras, contra R$ 2.381,43 para homens brancos.

O levantamento analisou dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) entre 2016 e 2023, e mede como raça e gênero influenciam o acesso da população a renda, educação, emprego e moradia no Brasil.

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Mulheres negras seguem na base da desigualdade

O estudo mostra que a estrutura de desigualdade econômica no Brasil permaneceu praticamente inalterada entre 2016 e 2023, formando uma “pirâmide econômica rígida”.

Com isso, apesar do aumento da renda para todos os grupos nos últimos anos, as desigualdades históricas ligadas à raça e gênero praticamente não diminuíram.

Segundo o levantamento, homens brancos seguem no topo dos indicadores de justiça econômica e renda no país, seguidos por mulheres brancas, homens negros e, na base, mulheres negras, que registraram os piores resultados em todo o período analisado.

Para Marcos Maestri, supervisor de Advocacy da Fundação Grupo Volkswagen, “a mensagem do estudo é: o elevador social do Brasil está quebrado”. Ele ressalta que outros dados indicam que uma pessoa pode levar até nove gerações para sair da pobreza e alcançar a classe média no país.

Na prática, isso significa que as condições médias de vida melhoraram, mas as posições na hierarquia social permaneceram praticamente as mesmas.

Índice de Justiça Econômica Racial (IJER)

Veja os dados de renda domiciliar per capita em 2023:

Homens brancos: R$ 2.844,21;

Mulheres brancas: R$ 2.410,43;

Homens negros: R$ 1.567,88;

Mulheres negras: R$ 1.402,18.

🔎 Os anos de 2020 e 2021, período da pandemia de COVID-19, foram excluídos da série histórica do Índice de Justiça Econômica Racial (IJER) porque, nesse período, as entrevistas da PNAD Contínua passaram a ser feitas por telefone, alterando a metodologia de coleta de dados.

O levantamento também aponta que, em média, as mulheres brasileiras recebem 78% da renda dos homens. Entre as mulheres negras, porém, esse percentual cai para 59%. No geral, pessoas brancas têm, em média, rendimentos 87% maiores do que pessoas negras no país.

Segundo Priscila Soares, coordenadora de pesquisa do Fundo Agbara, a desigualdade salarial está ligada tanto ao nível de escolaridade quanto ao tipo de ocupação acessado por diferentes grupos no mercado de trabalho.

“Homens brancos e mulheres brancas, em sua maioria, têm escolaridade mais alta, o que traz um retorno salarial maior. Já as mulheres negras estão mais concentradas em trabalhos informais, ligados a tarefas de cuidado e com vínculos mais precários”, afirmou.

Avanço sem redução das desigualdades

O Índice de Justiça Econômica Racial avançou de 0,53 em 2016 para 0,59 em 2023 no Brasil. O indicador varia de 0 a 1, sendo 1 o maior nível de justiça econômica.

Índice de Justiça Econômica Racial (IJER)

Apesar da melhora geral, os pesquisadores afirmam que o crescimento ocorreu de forma paralela entre os grupos, sem reduzir as desigualdades históricas.

“As mulheres negras são o único grupo que permanece abaixo da média nacional em todos os anos analisados. Mesmo com os avanços gerais, elas não conseguem alcançar o nível médio de justiça econômica do país”, afirma o estudo.

Os homens brancos registraram os maiores índices da série histórica, variando entre 0,67 e 0,69 — cerca de 18% acima da média nacional. Já o índice das mulheres negras ficou, em média, 11% abaixo do resultado nacional.

Já as mulheres brancas apresentaram índices de justiça econômica consistentemente superiores aos de homens negros. “Isso indica que a interação entre raça e gênero produz posições específicas na distribuição de oportunidades”, diz a pesquisa.

Desemprego, informalidade e trabalho doméstico

Além da renda mais baixa, as mulheres negras concentram os piores indicadores em emprego e condições de trabalho. Segundo o estudo, elas enfrentam maiores taxas de desemprego, informalidade e subocupação, além de menor presença em empregos formais.

Em 2023, apenas 33,3% das mulheres negras trabalhavam com carteira assinada — o menor percentual entre os grupos analisados.

O levantamento mostra ainda que elas continuam sendo maioria no trabalho doméstico, principalmente em ocupações sem carteira assinada.

Para os pesquisadores, essa diferença não é resultado de escolhas individuais, mas de desigualdades estruturais no mercado de trabalho.

“Muitas vezes elas precisam buscar renda muito cedo e acabam perdendo uma janela de capacitação que costuma ser acessível para outros grupos sociais”, afirmou Marcos Maestri.

Segundo ele, mesmo quando conseguem acessar o ensino superior, muitas mulheres negras precisam conciliar os estudos com empregos de baixa remuneração para ajudar financeiramente a família, o que compromete a profissionalização e a mobilidade social.

Ele destaca que o problema não está apenas no acesso ao trabalho, mas também na qualidade das oportunidades disponíveis.

Entre os fatores apontados estão:

maior presença em trabalhos essenciais e mal remunerados, como limpeza, cuidados e serviço doméstico;

concentração em empregos informais e instáveis;

maiores taxas de desemprego e dificuldade de acesso a vagas mais bem remuneradas.

Educação e moradia também mostram desigualdade

O estudo também identificou diferenças persistentes em educação, infraestrutura e saneamento. Segundo os pesquisadores, o acesso ao ensino superior continua sendo uma das principais barreiras para a população negra.

📚 As mulheres brancas seguem com maior presença nos níveis mais altos de escolaridade, incluindo graduação e pós-graduação. Já a população negra continua sub-representada no ensino superior, especialmente os homens negros, que registram os menores índices de acesso e conclusão dos cursos.

Entre os principais obstáculos enfrentados por estudantes negros estão a necessidade de começar a trabalhar mais cedo, a menor qualidade da educação básica, a falta de políticas de permanência estudantil e a presença de racismo institucional no ambiente acadêmico.

Na área de moradia, os dados mostram que 31,6% das mulheres negras dependiam, em 2023, de fossas não ligadas à rede de esgoto. Entre mulheres brancas, o percentual era de 20,7%.

O levantamento aponta ainda menor acesso das mulheres negras a bens domésticos, como máquinas de lavar, o que aumenta a sobrecarga de trabalho dentro de casa.

Segundo Priscila Soares, apesar dos avanços recentes, como políticas afirmativas e programas de transferência de renda, ainda faltam estratégias voltadas especificamente para mulheres negras.

“Hoje ainda é difícil encontrar políticas públicas que levem em conta ao mesmo tempo as desigualdades de raça e de gênero”, afirmou. “Quando pensamos em inclusão produtiva sem considerar gênero e raça ao mesmo tempo, continuamos fazendo com que mulheres negras permaneçam nessa posição de vulnerabilidade social”, disse.

Ao analisar toda a série histórica, o estudo conclui que os avanços econômicos e sociais dos últimos anos não foram suficientes para alterar a estrutura de desigualdade racial e de gênero no Brasil.

A coordenadora de pesquisa do Fundo Agbara afirma que houve avanços recentes, com mais mulheres negras ocupando espaços antes pouco acessíveis, como gestão, economia e finanças, mas em ritmo lento.

“Hoje vemos mulheres negras em posições antes não vistas, mas isso ainda não é suficiente. Não dá para dizer que o problema foi resolvido”, afirmou.

Segundo o estudo, mesmo com as melhorias gerais, não houve políticas públicas que pensassem a justiça econômica com um viés de equidade, ou seja, com o objetivo de corrigir as assimetrias históricas que prejudicam certos grupos há muito tempo.

O estudo recomenda que políticas universais não são suficientes para reduzir desigualdades estruturais e defende ações focadas em raça, gênero e território.

As propostas incluem priorizar mulheres negras em políticas públicas, garantir permanência no ensino com apoio financeiro e estrutural, e valorizar o trabalho de cuidado como atividade econômica.

Também defende criar mais oportunidades de emprego com carteira assinada, diminuir a presença de mulheres negras em trabalhos informais e mal pagos, e valorizar conhecimentos e habilidades que, ao longo da história, foram pouco reconhecidos.

Fonte: g1.globo.com

Imagem: s2-g1.glbimg.com


Fonte: g1.globo.com

Written By
Caio Marcio

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