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O funk paulistano documenta, desde os anos 2010

O funk paulistano documenta, desde os anos 2010
  • Publishedmarço 30, 2026

O funk paulistano documenta, desde os anos 2010, o crescimento do estelionato digital, representado pelos chamados “Rauls”, estelionatários virtuais que adotaram esse nome como identidade para marcar sua atuação. A origem do apelido remete a um aparelho usado para clonar cartões em caixas eletrônicos, conhecido como “Raul” ou “chupa-cabra”, e ao nome comum no Brasil, escolhido pelos golpistas para se diferenciarem do equipamento.

Produtores, MCs e pesquisadores explicam que o termo “Raul” passou a simbolizar esses criminosos nas letras do funk, que retratam não apenas a prática dos golpes financeiros, mas também o estilo de vida dos envolvidos, marcando o fenómeno cultural e social. Músicas de artistas como MC Kelvinho, MC Kapela, MC GP, MC J Vila e MC Luuky alcançaram milhões de visualizações ao contar a rotina dos “Rauls”, evidenciando o impacto do crime digital nas comunidades da periferia de São Paulo.

Um dos sucessos do gênero, “300 no 7”, detalha o modo como o personagem principal aplica golpes, usufrui do dinheiro em baladas e consome produtos de luxo. Segundo Yuri De Lucca Dinalli, diretor de A&R e marketing da GR6, principal produtora de funk do Brasil, o tema do estelionato já foi abordado por muitos dos maiores nomes do estilo, indicando que o assunto está bastante explorado, mas permanece relevante na cena musical.

Além do funk, o tema dos “Rauls” ganhará destaque nas telas a partir de outubro de 2025, com o lançamento da série “Rauls” na Netflix, criada pelos mesmos produtores da série “Sintonia”. A produção deve retratar o universo dos estelionatários digitais, incluindo a relação com a música, e conta com participações de MCs que já abordam o tema em suas canções.

A cultura em torno dos “Rauls” inclui elementos que vão além do crime, como o modo de vestir e gírias específicas. Os homens, chamados de “Rauls”, geralmente usam roupas de cores neutras, como preto, e bolsas transversais de grife, enquanto as mulheres, as “Raulas”, adotam macacões ou jaquetas acompanhadas de calças jeans de marca e presilhas no cabelo. O consumo de bebidas caros e a frequente presença em espaços sofisticados das periferias reforçam a imagem construída nas músicas.

A emergência do tema no funk acompanha a transformação do gênero, que desde o início dos anos 2000 já retratava a dinâmica do crime nas periferias paulistanas, inicialmente com foco em tráfico e assaltos. A pesquisa da socióloga Isabela Vianna Pinho, que estuda o tráfico internacional, evidencia o papel do funk como documentário cultural das realidades locais, processo que hoje inclui o estelionato digital.

Uma preocupação entre os MCs entrevistados é a associação entre o cantor e o crime, especialmente em casos recentes como o do MC Negão Original, investigado por suposto envolvimento em esquema de estelionato virtual. Eles afirmam que o papel do artista é narrar as histórias observadas na comunidade, não praticá-las.

A visão acadêmica também contribui para o entendimento do fenômeno. Ana Clara Klink, doutoranda em Antropologia Social na USP, destaca que o aumento dos crimes virtuais está ligado a fatores como o PIX, a pandemia e o anonimato da internet. Os criminosos são em sua maioria jovens entre 18 e 29 anos, com conhecimento técnico suficiente para manipular sistemas bancários sem uso de violência.

Gustavo Prieto, professor da UNIFESP que pesquisa crime organizado, comenta que o Primeiro Comando da Capital (PCC) tenta inserir os “Rauls” na organização como uma espécie de microempreendedores autônomos, que trabalham com celular e computador de forma independente e fora das regras tradicionais do crime organizado. Essa modalidade evidencia uma nova dinâmica no sistema criminoso.

O consumo do dinheiro obtido por meio dos golpes ocorre majoritariamente nas regiões de origem dos “Rauls”, mostrando que esses valores movimentam a economia local. Baladas, lojas de grife e eventos culturais fazem parte da rotina desses jovens, transformando a percepção social e econômica nas periferias. Isso reforça a ideia de que o estelionato digital está integrado a uma realidade complexa e multilayer.

O fenômeno dos “Rauls” ilustra a capacidade do funk paulistano em absorver e refletir as mudanças sociais e criminalísticas das últimas décadas. A cultura construída em torno do nome representa uma faceta do crime moderno, com impacto direto nas comunidades, na música e, em breve, na televisão. Dessa forma, o funk mantém seu papel de registro ativo das transformações da periferia e do avanço das modalidades criminais dentro e fora das favelas.

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Fonte: g1.globo.com

Imagem: s2-g1.glbimg.com


Fonte: g1.globo.com

Written By
Vitor Souza

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