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Série emergência radioativa retrata tragédia com césio em go

Série emergência radioativa retrata tragédia com césio em go
  • Publishedmarço 18, 2026

Cena de ‘Emergência Radioativa’, série que reconta a tragédia com césio-137 em Goiânia

Divulgação/Netflix

“Emergência Radioativa”, com estreia na Netflix nesta quarta-feira (18), já causou uma divisão entre os sobreviventes do acidente com césio-137 em Goiânia no qual a série se inspira.

O caso aconteceu em 1987, um ano após o desastre de Chernobyl, quando catadores abriram um aparelho de radioterapia abandonado em busca do chumbo que o revestia e acabaram espalhando material radioativo entre moradores, provocando o maior acidente radiológico do mundo fora de uma usina nuclear.

Mesmo tendo visto apenas os comerciais, que circularam via WhatsApp, alguns sobreviventes dizem que a história não aconteceu da forma que é retratada nas telas e se sentem incomodados. Outros, por outro lado, não veem problema.

É o que afirma Sueli de Moraes, vice-presidente da Associação de Vítimas do Césio-137.

A divisão envolve desde a forma como o pó radioativo é representado — mais ou menos brilhante, por exemplo — até o desconforto de ver atores encarnando figuras, que, para a comunidade, existiram — ou ainda existem — de verdade.

“Conheço todas as vítimas e fui vítima também. Tem pessoas que não estão gostando, de certo porque não viram ainda. Chateou muita gente do grupo, que disse que não tinha nada a ver, que era mentira”, diz ela. “Eu acho que não tem nada a ver.”

O acidente deixou quatro mortos na ocasião, mas outras mortes foram registradas nos anos seguintes por causas difíceis de associar com certeza à radiação, embora haja indícios que apontem para essa relação — os créditos da própria série na Netflix mencionam 16 vítimas fatais. Os sobreviventes seguem monitorados.

São Paulo virou Goiânia

Parte do incômodo se deve ao fato de que as filmagens ocorreram em cidades da Grande São Paulo, como Santo André e Osasco, o que gerou críticas do Conselho Municipal de Cultura de Goiânia.

Moraes acrescenta que, ao mesmo tempo, o clima nesta semana é de comemoração, diante da expectativa de um reajuste de 70% na pensão vitalícia paga às vítimas pelo governo de Goiás.

A proposta foi da pelo governador Ronaldo Caiado (PSD), por meio de um projeto de lei enviado à Assembleia Legislativa de Goiás na segunda-feira (16).

O texto prevê que os moradores mais afetados pela radiação — conforme exames realizados à época do acidente — passem a receber R$ 3.242, ante os atuais R$ 1.908. Os demais receberiam R$ 1.621, em vez dos R$ 954 pagos hoje.

Ao todo, 603 pessoas recebem o benefício, e os valores estão congelados desde 2018. Deputados chegaram a apresentar propostas de reajuste, mas elas enfrentaram entraves políticos — uma delas, inclusive, foi vetada por Caiado sob a justificativa de falta de estudos sobre o impacto orçamentário.

O ator Johnny Massaro, que interpreta um físico na produção, diz que a busca foi pelo “lado humano e dramático do caso”, mas acrescenta que é difícil não pensar sobre os impactos que ela pode ter na realidade.

“As feridas estão abertas, porque as vítimas que ainda sofrem as consequências. É uma história que pertence a elas, mas, ao mesmo tempo, pertence ao imaginário de toda a sociedade”, ele diz. “As pessoas vão no momento de lazer, mas tem essa beleza quando o entretenimento encontra uma função social e política.”

Ferro-velho em Goiânia de onde o césio-137 se espalhou

CNEN

O que é ficção e o que é realidade

Os produtores de “Emergência Radioativa”, os irmãos Caio e Fabiano Gullane, dizem que, para resgatar o caso, recorreram a consultores da Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cnen) e do Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen), além de físicos, médicos e jornalistas que acompanharam a tragédia.

“A gente não conseguiu — e nem era a intenção — retratar toda a tecnicidade, mas damos diversos exemplos para mostrar que não era uma coisa simples”, diz Caio.

Ao serem questionados sobre o que é verdade e o que é ficção na série, os Gullane dizem que pouco precisou ser alterado. As mudanças vieram da necessidade de construir uma narrativa em que cada ação leva a uma reação, com os acontecimentos organizados em estrutura mais linear do que na vida real.

Eles citam como exemplo os cintilômetros cênicos, os equipamentos usados para identificar a radiação. Os produtores foram até o Cnen gravar o ruído emitido na presença de material radioativo — um som agonizante, dizem, mas que precisava ser fiel à realidade.

Já ao representar as dezenas de cientistas que ajudaram no enfrentamento da contaminação, preferiram tomar certa liberdade e mostrar um núcleo bem menor de personagens. O principal deles é o físico nuclear Márcio, interpretado por Massaro.

Márcio nasceu em Goiânia, mudou-se para o Rio de Janeiro para estudar e, por acaso, estava de volta à cidade natal para comemorar o aniversário do pai quando o acidente ocorreu — uma trajetória diferente da do físico Waldyr Muniz de Souza, que identificou a radiação ao ser acionado formalmente pelas autoridades.

Ao longo dos cinco episódios, é Márcio que traduz conceitos técnicos da física para os moradores da cidade — que acabam ocupando, de certa forma, o mesmo lugar do espectador. Para isso, diz Johnny Massaro, houve uma longa preparação.

“Quando fui fazer o teste, não sabia que a história era verdadeira. Tem pessoas que estudaram o caso na escola, mas tem quem nunca ouviu falar dele”, diz o ator, acrescentando que pôde ver “os toneis amarelos, radioativos, e as coisas que estavam na cidade, como placas de rua e objetos das vítimas”.

A maior parte das seis toneladas de materiais contaminados foi enterrada em um depósito em Abadia de Goiás, a 25 quilômetros de Goiânia, onde devem permanecer por 300 anos.

Algumas amostras, porém, foram preservadas para pesquisa no Ipen e no Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares, ligado à Universidade de São Paulo (USP).

Não é a primeira vez que Massaro leva às telas histórias reais. No ano passado, ele protagonizou “Máscaras de Oxigênio Não Cairão Automaticamente”, da HBO Max, sobre a crise da Aids no Brasil nos anos 1980.

Na série, interpretou um comissário de bordo que ajudava a contrabandear antirretrovirais dos Estados Unidos quando os medicamentos ainda não haviam sido aprovados no Brasil.

“Tudo o que a gente pode ouvir e ver compõe o que a gente vai levar para as telas. É claro que algumas coisas ficam no plano do consciente, você não está gravando e pensando na placa da rua com radiação que viu no laboratório, mas isso compõe tudo o que a gente entrega”, diz o ator.

Os comissários da Varig que ‘contrabandeavam’ remédios para ajudar pacientes com Aids

Personagens reais

A personagem Celeste, uma menina de seis anos que morre após ingerir o césio, é diretamente inspirada em Leide das Neves, e não na condensação de várias vítimas, como Márcio.

O mesmo vale para os catadores que encontraram o material e para o dono do ferro-velho que o comprou e acabou espalhando o pó pela cidade.

É verdade ainda que, como na série, houve protestos acalorados de moradores que não queriam que a menina fosse enterrada em Goiânia por temerem que seu corpo contaminasse o solo. Também são reais as disputas entre autoridades locais que, por motivos políticos, resistiam à ideia de que o material fosse enterrado em Goiás.

Os atores, no entanto, não tiveram contato com a mãe de Leide, Lourdes das Neves Ferreira, nem com outras vítimas — a maioria dos sobreviventes ainda vivem na região central de Goiânia ou no interior do estado.

Segundo os produtores, isso não foi necessário porque a equipe contou com pesquisadores que se basearam em entrevistas, reportagens, documentários e processos judiciais.

“É sempre um desafio escolher o que fica dentro e o que fica fora do roteiro, mas a gente procurou ser fiel na reconstituição dos fatos, tendo uma garantia de que, essencialmente, o que os especialistas falaram e o que aconteceu fosse contado. É um respeito pela memória das pessoas”, diz Fabiano.

Um alerta

Apesar de “Emergência Radioativa” reordenar acontecimentos para conferir dramaticidade à narrativa — processo conhecido como ficcionalização —, há elementos que guardam proximidade com a realidade.

Eles dizem respeito, principalmente, à forma como a sociedade reage a emergências de saúde pública como essa, tendo a pandemia de Covid-19 que surgiu em 2020 como exemplo.

Não é difícil traçar os paralelos: médicos confinaram os contaminados em um estádio de futebol e depois os transferiram para um hospital onde, a princípio, não podiam nem sequer usar o banheiro, para evitar a contaminação da rede de esgoto.

Ainda foi necessário evacuar quarteirões inteiros, sacrificar animais de estimação e demolir casas, o que despertou a fúria dos goianos. As autoridades pediam tempo para responder às dúvidas da imprensa e da população, mas poucos estavam dispostos a esperar, tirando conclusões precipitadas.

Nada disso soa distante a qualquer um que tenha vivido a pandemia. “A abordagem da série tem foco no resgate histórico e no aprendizado que ficou para o Brasil e para o mundo”, diz Caio, acrescentando que as medidas adotadas em Goiânia hoje são referência para o mundo todo.

“Talvez o componente mais importante da série seja mostrar pessoas que, embora pensassem diferente, tiveram que encontrar juntos uma solução para o problema. Sem isso, a tragédia poderia ter matado muito mais. Essas pessoas se respeitaram e encontraram um ponto de vista comum”, diz Fabiano.

Fonte: g1.globo.com

Imagem: s2-g1.glbimg.com


Fonte: g1.globo.com

Written By
Vitor Souza

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