Um relatório internacional divulgado em julho de 2025 alerta para o uso massivo de pesticidas na produção mundial de café, destacando os riscos à saúde dos trabalhadores rurais e os impactos ambientais. O estudo, elaborado pela organização Coffee Watch, analisa a presença de resíduos químicos na cadeia produtiva do café, com foco especial no Brasil, maior produtor e exportador global.
O documento “Poison in Your Coffee” reúne dados de centenas de pesquisas científicas que apontam o cultivo do café como uma das culturas agrícolas mais dependentes de pesticidas em países produtores. Cerca de 20% das xícaras consumidas no mundo contêm resíduos desses produtos, mas o principal problema é a exposição dos trabalhadores.
O relatório identificou 159 substâncias ativas autorizadas para uso em plantações de café, entre elas compostos classificados como potencialmente cancerígenos, neurotóxicos ou tóxicos para a reprodução humana. Entre os pesticidas utilizados no setor, 59% a 60% são proibidos na União Europeia devido a riscos para a saúde e o meio ambiente.
Produtos como o clorpirifós, banido na União Europeia desde 2020 por seus efeitos no desenvolvimento neurológico infantil, e o imidacloprido, associado ao declínio das populações de abelhas, são exemplos citados pelo relatório.
No mundo, cerca de 25 milhões de produtores e 100 milhões de trabalhadores atuam na cadeia produtiva do café. Em muitas regiões, o acesso a treinamento e equipamentos de proteção é insuficiente, o que resulta em exposição frequente a pesticidas que causam intoxicações agudas. Sintomas como náuseas, tontura e irritações na pele são comuns entre esses trabalhadores.
O relatório ressalta que os riscos mais graves aparecem a longo prazo, com 14% dos pesticidas usados considerados cancerígenos comprovados ou prováveis. Quase dois terços apresentam potencial toxicidade reprodutiva. Pesquisas também associam a exposição prolongada a doenças neurodegenerativas, como Parkinson, problemas de fertilidade e efeitos no desenvolvimento de fetos expostos durante a gestação.
O Brasil, maior produtor e exportador de café, é foco da investigação. Estudos mostram que trabalhadores rurais brasileiros aplicam pesticidas sem equipamento adequado. Em Minas Gerais, foram registrados casos recorrentes de intoxicação e exposição a substâncias classificadas como altamente perigosas.
O relatório aponta ainda que vários pesticidas autorizados no Brasil são proibidos na União Europeia. Substâncias altamente tóxicas para humanos e para a biodiversidade são utilizadas no país. Pesquisas em regiões cafeeiras de Minas Gerais também detectaram resíduos de dezenas de pesticidas em cursos d’água próximos às plantações, o que levanta preocupações sobre contaminação ambiental e possíveis impactos no abastecimento de água local.
Além dos riscos à saúde, o relatório destaca a perda de 737 mil hectares de cobertura florestal no Brasil entre 2002 e 2023, principalmente no Cerrado, devido à expansão da cafeicultura.
O estudo analisou a presença de resíduos químicos nos grãos comercializados internacionalmente. Entre 2020 e 2024, pesticidas foram a principal categoria de risco identificada pelo sistema europeu de alerta rápido para alimentos no setor do café. Dados da PAN Europe indicam que 23% das amostras analisadas na Europa continham resíduos de pesticidas proibidos na União Europeia.
Segundo os pesquisadores, o problema envolve a combinação de diversos produtos químicos, cujos efeitos cumulativos ainda são pouco compreendidos.
O relatório também questiona a eficácia de certificações de sustentabilidade na indústria do café. Esses selos podem indicar avanços, mas não garantem a ausência de pesticidas nem asseguram condições dignas de trabalho para todos os envolvidos na cadeia produtiva.
A Coffee Watch destaca práticas agroecológicas e sistemas agroflorestais que reduzem a dependência de pesticidas, preservam a biodiversidade e melhoram a qualidade do solo. Tais sistemas aumentam a resiliência das plantações diante das mudanças climáticas.
A organização conclui que o café orgânico é uma alternativa existente, mas que o setor precisa decidir se está disposto a adotá-la em larga escala.
Palavras‑chave relacionadas: pesticidas, cafeicultura, saúde dos trabalhadores, café brasileiro, exposição química, intoxicação ocupacional, sustentabilidade, agroecologia, resíduos químicos, impacto ambiental.
Fonte: g1.globo.com
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Fonte: g1.globo.com

