Previsões indicam a possibilidade de um super El Niño no segundo semestre de 2026, o que deve elevar as temperaturas e alterar os padrões de chuva, afetando a produção agrícola em várias regiões tropicais do mundo. A Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) apontou 63% de probabilidade de que o fenômeno atinja níveis muito fortes até 2027.
O El Niño é um aquecimento irregular da superfície do Pacífico Oriental, causado pela redução dos ventos alísios. Esse fenômeno climático ocorre de forma natural a cada dois a sete anos e dura entre nove e doze meses. Ele provoca mudanças nos regimes de temperatura e precipitação globais, gerando secas em algumas regiões, como Ásia, Austrália e África Austral, e chuvas intensas em outras, incluindo o sul da América do Sul e Estados Unidos.
Agricultores enfrentam novos desafios diante do cenário climático e das dificuldades econômicas provocadas por aumentos nos preços de fertilizantes e combustíveis. A produção de commodities agrícolas já revelou sensibilidade às variações causadas pelo El Niño. Durante episódios anteriores, os preços dessas commodities tendem a subir em resposta à queda da oferta.
No caso do cacau, os episódios fortes de El Niño nos últimos 55 anos provocaram redução na produção. A região da África Ocidental, maior produtora mundial, sofreu chuvas acima do normal em 2023, que favoreceram o surgimento de doenças fúngicas. Em 2024, o quadro mudou para calor e ventos secos, prejudicando o florescimento das árvores. Cerca de metade da produção mundial de cacau está concentrada na Costa do Marfim e em Gana, que enfrentam impactos diretos desse fenômeno.
Os preços do cacau dispararam em 2024, alcançando valores que superaram US$ 12 mil por tonelada métrica, refletindo as dificuldades na produção. O aumento torna o cacau mais caro do que muitos metais industriais.
Em relação ao café, o El Niño afeta principalmente o robusta, produzido principalmente no Vietnã e Indonésia. O fenômeno reduz as chuvas e aumenta as temperaturas nessas regiões durante o desenvolvimento da safra, o que pode diminuir significativamente a produtividade. Juntas, essas nações respondem por cerca de 50% da produção global de robusta.
Para o café arábica, com forte presença brasileira, o impacto é mais discreto. Temperaturas mais altas durante o El Niño podem evitar geadas no inverno, beneficiando a safra atual. Entretanto, o aumento da temperatura e a redução de chuvas no último trimestre podem prejudicar a safra seguinte, prevista para 2027.
No setor do açúcar, o El Niño provoca efeitos distintos entre os principais produtores mundiais. No Brasil, o fenômeno gera chuvas intensas no segundo semestre, que podem afetar negativamente a colheita e a qualidade da safra. Já na Índia, segundo maior produtor, e na Tailândia, segundo maior exportador, o El Niño costuma reduzir a monção de verão, provocando menor precipitação durante o desenvolvimento da safra.
Especialistas indicam que a Índia pode enfrentar a menor monção em 11 anos em 2026, com volume de chuva estimado em 90% da média histórica para o período. Essa situação pode reduzir a produção indiana em cerca de 1 milhão de toneladas.
Apesar dos efeitos adversos no curto prazo, o aumento das chuvas previstas para as regiões açucareiras brasileiras pode beneficiar a produção de 2027. A expectativa é de que o mercado do açúcar não apresente alta significativa devido ao equilíbrio entre impactos negativos e positivos nas diferentes áreas produtoras.
O Brasil responde por cerca de metade das exportações mundiais de açúcar, o que torna o impacto do El Niño no país relevante para o mercado global.
Em resumo, o fortalecimento do El Niño em 2026 tende a provocar alterações climáticas que influenciam diretamente as safras tropicais. As variações na quantidade de chuva e nas temperaturas afetam a produtividade de cacau, café e açúcar, commodities que têm grande importância econômica mundial. Os efeitos climáticos combinados aos desafios logísticos e econômicos enfrentados pelos produtores geram incertezas sobre a estabilidade dos mercados agrícolas.
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Fonte: g1.globo.com
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