Horas antes da convocação oficial da seleção brasileira para a Copa do Mundo de 2026, o goleiro Hugo Souza acompanhou ao vivo a lista divulgada por Carlo Ancelotti e não foi chamado para a competição, apesar da boa fase. Essa situação expôs a frustração de atletas que ficam de fora de um objetivo profissional importante, revelando lições sobre como lidar com decepções.
Ao contrário de Hugo, o lateral-direito Wesley, que havia sido convocado, foi cortado da equipe após sofrer uma lesão no último amistoso. Nas redes sociais, ele afirmou que enfrentaria o momento “de cabeça erguida” e que voltaria ainda mais forte, ilustrando outra forma de lidar com a frustração. Esses casos têm forte identificação com situações fora dos esportes, como profissionais que não recebem promoções ou enfrentam rejeições em processos seletivos.
Especialistas destacam que a frustração ultrapassa a decepção pontual, afetando a autoestima, a identidade e a percepção de valor pessoal. Gustavo Drago, pesquisador da USP com experiência em preparação olímpica, explica que a reação de cada pessoa depende da interpretação feita sobre a rejeição. Enquanto alguns veem o revés como um episódio temporário, outros o relacionam diretamente à própria competência, o que pode gerar sofrimento mais intenso.
A dificuldade em separar o desempenho profissional da identidade pessoal contribui para a intensidade da frustração. No esporte, atletas aprendem a se reorganizar emocionalmente após derrotas, cortes ou lesões, entendendo esses momentos como parte natural do processo competitivo. Já no ambiente corporativo, a expectativa por crescimento linear contínuo e a ausência de suporte emocional adequado podem tornar essa reorganização mais difícil.
Drago observa que o mercado de trabalho de alta performance reproduz pressões semelhantes às do esporte, com cobranças constantes por resultados e produtividade. Porém, enquanto atletas contam com acompanhamento psicológico e períodos de recuperação, muitos profissionais enfrentam a pressão sem suporte emocional suficiente. Isso pode levar a um estado de autoproteção mental, resultando em perfeccionismo, procrastinação e dificuldade para inovar.
O sócio de Auditoria da CLA Brasil, Thiago Brehmer, reforça que a intensidade do sentimento de frustração está ligada ao investimento pessoal na trajetória. Tanto no esporte quanto nas empresas, o acúmulo de expectativas e esforços gera uma sensação de desvalorização quando os objetivos não são alcançados. Para ele, a lição dos atletas sobre reconstrução emocional é valiosa para o meio corporativo, pois permite a retomada e o ajuste rumo a novos objetivos.
Segundo Brehmer, manter-se paralisado pela frustração compromete o desenvolvimento da carreira. Por isso, é importante interpretar promoções não conquistadas, projetos recusados e vagas perdidas como etapas de um processo contínuo e não como fracassos definitivos. No entanto, as organizações ainda enfrentam resistência para incorporar práticas de recuperação emocional, pressionando constantemente por desempenho.
Esse paradigma, segundo Drago, cria um paradoxo onde se exige criatividade, clareza emocional e inovação de profissionais submetidos a níveis elevados de estresse e esgotamento. Isso eleva índices de ansiedade, burnout e perda de qualidade de vida, prejudicando a alta performance. O pesquisador defende que a sustentabilidade emocional deve ser vista como parte estratégica para a performance, não como benefício secundário.
Brehmer concorda e alerta que as organizações que conciliam cobrança por resultados com segurança emocional conseguem formar equipes mais resilientes e preparadas para a pressão. Ele ressalta que, assim como no esporte, a recuperação não é pausa improdutiva, mas componente estratégico da consistência e do desempenho a longo prazo.
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Fonte: g1.globo.com
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