Meryl Streep retoma o papel de Miranda Priestly em “O Diabo Veste Prada 2”, lançado em abril de 2024, mostrando uma personagem que enfrenta denúncias internas e questionamentos sobre seu estilo autoritário no ambiente de trabalho. A sequência reflete mudanças culturais recentes que desafiam a liderança baseada em controle e abuso, temas presentes no filme original de 2006.
O filme original retratava uma editora-chefe que cobrava disponibilidade total da equipe, aceitava humilhações públicas e delegava tarefas impossíveis, aparência que até então era vista como símbolo de sucesso corporativo. Hoje, esse modelo enfrenta críticas por sua associação com problemas como assédio moral, burnout e desequilíbrio entre vida pessoal e profissional.
Na nova produção, Miranda não é mais intocável e seu comportamento é questionado. Detalhes como a ausência de gestos autoritários mostram a evolução na percepção sobre poder e liderança. Esse reflexo midiático acompanha debates que ganharam espaço nos últimos anos sobre saúde mental e direitos dos trabalhadores.
Enquanto o cinema revisita o estilo de chefia rigoroso sob um olhar crítico, a realidade corporativa apresenta tendências contrárias. Reportagem da Bloomberg destaca empresas que adotam práticas rígidas, como retorno obrigatório ao trabalho presencial, aumento da supervisão da produtividade e regras de vestimenta mais restritivas, exemplificadas por redes como Target e Starbucks.
Especialistas alertam que essa retomada de controle não significa necessariamente um retorno ao modelo autoritário de liderança. Mariana Laselva, especialista em liderança, destaca que o controle sempre esteve presente, mas as ferramentas e formas de manifestação mudaram. Tatiana Marzullo, fundadora de programa de liderança feminina, acredita que ajustes recentes nas empresas ocorrem após quedas de produtividade e dificuldades de gestão observadas no período pós-pandemia.
O modelo de trabalho mudou significativamente nas últimas duas décadas. Antes, jornadas exaustivas e chefes agressivos eram normalizados e até valorizados como provas de comprometimento profissional. A estabilidade no emprego fazia com que os trabalhadores aceitassem essas condições. A partir da discussão crescente sobre saúde mental e direitos, temas como burnout, ansiedade e assédio passaram a ser reconhecidos como questões legítimas de gestão.
A pandemia acelerou esse processo ao expor os limites entre vida pessoal e profissional, fazendo muitos repensarem prioridades e relação com o trabalho. Hoje, trabalhadores têm acesso a canais públicos para denunciar abusos, aumentando a pressão sobre as empresas. A reputação e o risco jurídico se tornaram fatores decisivos para a adoção de políticas mais rigorosas de compliance.
No entanto, as exigências atuais vão além da competência técnica e da cobrança extrema. A liderança passou a envolver inteligência emocional, escuta ativa, desenvolvimento de equipes e construção de confiança. “A régua da liderança atual inclui humanidade”, afirma Tatiana Marzullo.
Ainda que grandes empresas aumentem as regras e controles, o contexto não é homogêneo. Setores específicos mantêm o trabalho presencial por razões estratégicas, como troca de conhecimento e fortalecimento de vínculos profissionais. Para as especialistas, a recuperação da rigidez em algumas companhias deve ser vista como ajuste, não como retrocesso total.
Especialistas alertam, porém, para o risco de reproduzir modelos que prejudicam a saúde mental e a produtividade. As organizações que ignorarem os aprendizados recentes podem enfrentar aumento de rotatividade, afastamentos por burnout e perda de talentos.
No cenário atual, o mercado de trabalho vive uma disputa entre duas abordagens: a busca por produtividade e controle e a valorização de equilíbrio, autonomia e relações mais horizontais. O futuro da liderança dependerá da capacidade das empresas de equilibrar esses aspectos.
Palavras-chave: Miranda Priestly, O Diabo Veste Prada 2, liderança corporativa, assédio moral, burnout, saúde mental no trabalho, flexibilização, comando e controle, cultura organizacional, trabalho presencial, pandemia e trabalho, inteligência emocional, compliance corporativo.
Fonte: g1.globo.com
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Fonte: g1.globo.com

