Donald Trump e sua família ampliaram significativamente seus negócios durante o segundo mandato, levantando questões sobre possíveis conflitos de interesse enquanto ele ocupa a presidência dos Estados Unidos. De 2021 para cá, a Trump Organization fechou novos acordos internacionais, especialmente em países que mantêm relações estratégicas com os EUA, além de expandir investimentos em criptomoedas.
Historicamente, presidentes americanos evitavam lucrar diretamente por meio do cargo. Harry Truman vetava o uso de seu nome em negócios; Richard Nixon monitorava familiares para evitar benefícios; George W. Bush vendeu todas as ações antes da posse. Trump adotou uma postura distinta, permitindo que os negócios familiares crescessem e angariassem grandes somas, enquanto ele permanece no poder.
Os filhos de Trump, Eric e Donald Jr., passaram a administrar a ampliação dos negócios, incluindo investimentos em criptomoedas e empresas que buscam contratos com o governo federal. Entre esses investimentos está uma empresa que fabrica drones armados e tenta vender ao Pentágono e países do Golfo, que dependem da proteção militar dos EUA.
Os acordos da Trump Organization no exterior incluem complexas relações com governos locais. No Catar, um empreendimento imobiliário Trump recebe investimento direto de uma empresa estatal. No Vietnã, terras foram desapropriadas para construção de resort Trump, aprovado oficialmente pelo vice-primeiro-ministro. Na Arábia Saudita, um resort Trump está sendo construído por uma empresa ligada à família real.
Embora não haja provas diretas de que esses negócios influenciaram decisões políticas dos EUA, os países obtiveram benefícios relacionados a políticas americanas, como acesso à tecnologia, redução de impostos e compras militares. A Trump Organization recebeu milhões em taxas desses projetos, mas nega que tenha firmado contratos diretos com governos estrangeiros.
Na área de criptomoedas, a Trump Organization vendeu quase metade da empresa World Liberty Financial para um fundo governamental dos Emirados Árabes Unidos pouco antes da posse de Trump em 2017, por US$ 500 milhões. Posteriormente, o governo Trump cancelou restrições para que esse país importasse chips tecnológicos avançados dos EUA. A plataforma Binance, que recebeu investimentos dos Emirados, teve seu fundador perdoado por Trump, apesar de denúncias de uso para atividades criminosas, o que a defesa nega relação com favorecimento político.
A World Liberty também lançou “tokens de governança” que permitem votações em decisões da empresa, acumulando US$ 2 bilhões no ano passado. Esses tokens atraíram bilionários estrangeiros, entre eles Justin Sun, que investiu US$ 75 milhões e participou de eventos exclusivos com Trump. Além disso, moedas digitais com o rosto de Trump movimentaram US$ 320 milhões em poucos meses, valor superior ao faturamento do hotel Trump International em Washington durante todo o primeiro mandato.
Apesar da volatilidade do mercado cripto, a família Trump mantém ativos significativos em ações e moedas digitais. No entanto, o valor dessas ações e tokens caiu até 90% desde os picos, acompanhando a oscilação do mercado. Trump já realizou eventos para os maiores compradores das moedas, influenciando temporariamente o preço.
A Casa Branca e a Trump Organization negam irregularidades, afirmando que Trump não se envolve diretamente nas operações e que as ações estão sob a gestão dos filhos. Declaram também estar em conformidade com as normas de ética e descartam conflitos de interesse. Trump por sua vez afirmou em entrevistas que acredita que o público não se importa com essas questões.
Entretanto, especialistas em ética e historiadores veem os conflitos como inéditos e perigosos, com decisões políticas possivelmente influenciadas por interesses privados. Julian Zelizer, da Universidade de Princeton, aponta que atualmente não existe distinção clara entre interesses políticos e familiares na gestão de Trump.
A fortuna da família Trump aumentou 60% desde o retorno do presidente ao governo, chegando a US$ 6,3 bilhões, conforme a revista Forbes. Enquanto alguns empreendimentos anteriores enfrentaram dificuldades ou perdas, o nome Trump segue sendo explorado em negócios que podem se beneficiar da proximidade com o poder.
Nos primeiros meses do segundo mandato, acordos continuam se firmando, incluindo novos projetos na Arábia Saudita em parceria com fundos soberanos ligados ao príncipe Mohammed bin Salman. Embates éticos permanecem, com a Trump Organization insistindo não haver negócios diretos com entidades governamentais estrangeiras.
O cenário atual levanta questionamentos sobre os limites entre vida empresarial e poder público, assim como o impacto disso para a confiança na democracia americana. Especialistas esperam que futuros presidentes adotem postura mais cautelosa para evitar percepção de enriquecimento às custas do cargo.
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Fonte: g1.globo.com
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Fonte: g1.globo.com

