Antonela trabalha de segunda a sábado em um

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Antonela trabalha de segunda a sábado em um instituto privado de bioquímica em Buenos Aires há dois anos, mas seu emprego formal não é suficiente para mantê-la fora da pobreza. Apesar de receber um salário legalmente registrado e ter formação universitária, ela precisa complementar a renda com outro trabalho informal para cobrir suas despesas.

A situação de Antonela reflete um fenômeno crescente na Argentina, onde um em cada cinco trabalhadores vive em condições de pobreza, mesmo com emprego formal. De acordo com o Instituto Interdisciplinar de Economia Política da Universidade de Buenos Aires (UBA), o emprego formal no país tem se deteriorado, e ter uma vaga registrada deixou de ser garantia contra a pobreza.

O conceito de “trabalhadores pobres” define pessoas que, apesar da ocupação, recebem salários insuficientes para escapar da pobreza. Dados recentes indicam que o salário mínimo argentino está em níveis mais baixos do que os observados durante a crise econômica de 2001. Além disso, os trabalhadores informais são os mais vulneráveis: um em cada três está na pobreza, segundo o último relatório do mesmo instituto.

O governo argentino comemorou a redução da taxa de pobreza para 28%, o menor índice dos últimos sete anos, conforme divulgado pelo Instituto Nacional de Estatísticas e Censos do país (Indec). O ministro da Economia, Luis Caputo, atribuiu essa queda ao crescimento econômico, à redução da inflação e ao reforço dos programas sociais. No entanto, especialistas e analistas independentes questionam esses números, apontando que a metodologia de cálculo da pobreza pode distorcer os resultados diante da alta inflação.

A inflação acumulada nos últimos 12 meses é de 33% e continua em tendência de crescimento, reduzindo o poder de compra dos trabalhadores argentinos. A Pesquisa da Dívida Social da Universidade Católica Argentina (UCA) aponta que quase 20% dos trabalhadores empregados estão em situação de pobreza, percentual que sobe para 26% no setor informal. Atualmente, cerca de seis milhões de argentinos trabalham informalmente, sem acesso a direitos básicos como saúde, licenças ou aposentadoria.

A precariedade do mercado de trabalho contribui para o aumento da pobreza trabalhista. Eduardo Donza, pesquisador da UCA, destaca que mais da metade dos funcionários empregados pertence ao setor microinformal da economia. Entre os assalariados formais, 10% vivem na pobreza, enquanto entre os informais esse índice ultrapassa 33%. Trabalhadores autônomos apresentam pobreza em cerca de 27%, entre os quais os profissionais possuem situação semelhante aos assalariados formais e os menos qualificados se aproximam dos informais.

Além da informalidade, a perda do poder de compra do salário médio agrava a situação dos trabalhadores. Entre 2010 e 2025, o salário médio perdeu mais de 20% do seu valor real, segundo dados da UCA, o que obriga muitos profissionais a buscar múltiplos empregos ou apoio familiar para sobreviver no dia a dia. Antonela é um exemplo dessa realidade: ela diz estar em “modo sobrevivência”, trabalhando além do expediente para conseguir pagar suas contas.

A mobilidade social na Argentina também apresenta sinais de enfraquecimento. Pesquisa da UCA revela que quatro em cada dez pessoas consideram estar em pior situação econômica que seus pais. O aumento da informalidade, a queda nos salários reais e as limitações das políticas públicas dificultam a redução estrutural da pobreza e a melhoria das condições de vida dos trabalhadores.

Analistas apontam que as medidas propostas pelo governo do presidente Javier Milei, como reformas trabalhistas e ajustes econômicos, ainda não resolveram o problema da pobreza entre os trabalhadores formais e informais. Enquanto isso, a informalidade avança e a qualidade do emprego diminui.

Antonela, como muitos argentinos, aguarda uma mudança que lhe permita sair do “modo sobrevivência” e retomar uma vida com mais segurança econômica e acesso a bens e serviços além do essencial. Por enquanto, a realidade mostra que ter emprego na Argentina não garante proteção contra a pobreza.

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Fonte: g1.globo.com

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Fonte: g1.globo.com

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