O documentário “Vivo 76”, dirigido por Lírio Ferreira, retrata a trajetória do cantor Alceu Valença entre 1975 e 1976, destacando o show “Vou danado pra Catende” realizado na Praia de Copacabana (RJ) e o álbum ao vivo “Vivo!”, lançado em março de 1976. O filme estreou em 8 de abril como atração de abertura do festival É Tudo Verdade, que ocorreu entre 9 e 19 de abril em Rio de Janeiro e São Paulo.
O documentário revisita o período que definiu a carreira do artista, mostrando como ele mesclou elementos da música nordestina com o rock, criando um estilo inovador na época. Antes de abordar o disco “Vivo!”, o filme narra a infância de Alceu em São Bento do Una (PE) e sua trajetória até o lançamento do primeiro álbum solo, “Molhado de Suor” (1974), que teve pouca repercussão.
Ao longo da narrativa, o filme intercala cenas do show de 1975 com entrevistas atuais e material de arquivo televisivo. Participam do documentário o crítico musical Antonio Carlos Miguel, o músico e pesquisador Charles Gavin e o biógrafo Júlio Moura, que detalham aspectos da carreira de Alceu e o contexto cultural da época.
O depoimento de Júlio Moura destaca a viagem de Alceu aos Estados Unidos em 1969, durante o Festival de Woodstock, e menciona a resistência encontrada pelo artista da elite cultural brasileira, incluindo críticas da imprensa vinculada ao semanário “O Pasquim”. Essa oposição reflete o ambiente de repressão política enfrentado por artistas que se posicionavam durante a ditadura militar.
O reencontro de Alceu Valença com Geraldo Azevedo, parceiro em seu primeiro disco de 1972, é um ponto marcante do filme. Eles se apresentam juntos no Teatro Claro Mais, local onde o show “Vou danado pra Catende” estreou no Rio de Janeiro. Azevedo relata ter sido preso e submetido a tortura pela repressão, episódio que abalou Alceu durante a temporada no teatro e o levou a considerar deixar o país.
Para ilustrar o clima político, o diretor incorpora imagens de protestos e cenas do clipe da música “Retrato 3 x 4”, tema da novela “O Espigão” (1974), exibido originalmente no programa “Fantástico”. O documentário também aborda o preconceito que Alceu enfrentou, provocado por seu visual e comportamento pouco convencionais para a época.
Na sequência da temporada em teatros vazios, quando o público do show diminuiu para apenas cinco pessoas, Alceu e sua banda, que incluía nomes como Zé Ramalho e Paulo Rafael, decidiram promover o espetáculo na Praia de Copacabana usando um megafone para divulgar a apresentação. Essa estratégia inusitada atraiu atenção e ajudou a preencher o teatro nas sessões seguintes.
O sucesso do show ao vivo gerou o álbum “Vivo!”, que marcou um ponto de virada na carreira de Alceu Valença e o consolidou como um artista capaz de inovar e resistir aos padrões da indústria cultural da época. O documentário destaca a determinação do cantor em manter sua identidade artística mesmo diante da repressão e do descrédito.
“Vivo 76” retrata não apenas a música, mas também o contexto político e social do Brasil durante a ditadura, evidenciando o papel da cultura como forma de resistência. O filme oferece uma visão detalhada da trajetória de Alceu Valença, revelando dimensões pessoais e profissionais que ajudaram a moldar sua carreira.
Com duração aproximada e linguagem acessível, o documentário contribui para preservar a memória da música brasileira e do movimento cultural que desafiou os regimes autoritários da década de 1970. A produção assinala a importância de revisitar este período para compreender a relação entre arte e política no país.
—
Palavras-chave relacionadas: Alceu Valença, Vivo 76, Lírio Ferreira, “Vou danado pra Catende”, álbum Vivo!, música nordestina, rock brasileiro, festival É Tudo Verdade, ditadura militar, repressão política, documentário musical, Zé Ramalho, Geraldo Azevedo, cultura brasileira, resistência cultural, show na Praia de Copacabana.
Fonte: g1.globo.com
Imagem: s2-g1.glbimg.com
Fonte: g1.globo.com

