A Polícia Federal investiga um esquema de fraudes em concursos públicos que envolve o chefe da Polícia Civil de Alagoas, conforme documentos obtidos pelo Fantástico neste domingo (22). A operação identificou um grupo que atuava em diversos estados e manipulava processos seletivos importantes, como o Concurso Nacional Unificado (CNU), concursos para as Polícias Civis, Caixa Econômica Federal e Banco do Brasil.
O esquema utilizava técnicas variadas para burlar os protocolos de segurança, incluindo o uso de dispositivos eletrônicos implantados cirurgicamente em candidatos, falsificação de documentos, acesso antecipado às provas e a utilização de “bonecos” para fazer as provas em lugar dos inscritos. Esses métodos permitiam que as quadrilhas controlassem ou influenciassem diretamente o desempenho dos participantes e garantissem aprovações fraudulentas.
Em uma operação recente, a Polícia Federal confirmou o uso de pontos eletrônicos inseridos no corpo dos candidatos, que só podiam ser removidos por meio de procedimento médico. O dispositivo recebia informações externas durante a prova. Além disso, havia violação dos envelopes com as provas por membros do grupo, que também utilizavam fotografias das questões e subornavam vigilantes para desligar câmeras.
A investigação começou a partir de uma denúncia anônima que levou ao ex-policial militar Wanderlan Limeira de Sousa, em Patos, Paraíba. Ele e dois parentes foram aprovados no Concurso Nacional Unificado de 2024 para auditor fiscal do trabalho. Em áudios encontrados no celular da sobrinha de Wanderlan, há relatos de suborno de vigilantes, uso de “bonecos” e recebimento antecipado das respostas da prova, incluindo o tema da redação.
No último mês, a Polícia Federal cumpriu mandados de prisão e busca em Alagoas, Paraíba e Pernambuco. Dois professores suspeitos de fazer as provas para outros candidatos foram detidos, e o delegado-geral de Alagoas foi alvo de mandado de busca e apreensão.
O advogado especialista em concursos públicos José da Silva Moura Neto destaca que, apesar do reforço nos protocolos de segurança pelas bancas organizadoras, as quadrilhas evoluíram nos métodos. Assinala que provas discursivas são uma barreira adicional, pois exigem produção própria dos candidatos, dificultando fraudes, mas não eliminam outros tipos de manipulação.
Segundo a Polícia Federal, os valores para garantir aprovação variavam conforme o cargo, podendo chegar a R$ 500 mil para posições de alto escalão, como auditor fiscal. O pagamento podia ser feito à vista ou parcelado, inclusive com bens como carros e viagens.
Wanderlan Limeira de Sousa, apontado como principal articulador da quadrilha, já faleceu em decorrência de problemas de coagulação sanguínea. Ele foi responsável por negociar com candidatos, coordenar a logística das fraudes e acessar provas antes da aplicação. A investigação aponta que o esquema operava há mais de uma década, com atuação em concursos da Polícia Federal, Polícias Civis e Militares, universidades federais e bancos públicos.
Os criminosos organizavam as ações com hierarquia definida, ramificações em vários estados e funções específicas, desde quem aplicava as provas até operadores financeiros que administravam os lucros. As fraudes envolviam também a falsificação de documentos para efetivar contratações ilegais e substituição dos candidatos originais.
Em resposta aos casos de fraude, o Ministério da Justiça e Segurança Pública e o Ministério da Gestão e Inovação, em parceria com a Polícia Federal, adotam medidas para ampliar a fiscalização e garantir integridade nos concursos. Entre as ações estão a identificação individualizada das provas com códigos de barra, sigilo no número de tipo de prova, detectores de metal e ponto eletrônico em locais de exame, além do reforço na escolta e guarda dos materiais por forças policiais.
Além da anulação das aprovações, os envolvidos podem responder por crimes como fraude em concurso público, organização criminosa, falsificação de documentos e lavagem de dinheiro. Servidores já nomeados com provas de irregularidades podem ser afastados para investigações.
Esse caso resgata uma investigação iniciada em 2023, que revelou uma “máfia dos concursos” operando como empresa familiar na Paraíba. O grupo cobrava valores milionários e aceitava bens além do dinheiro para garantir vagas públicas, utilizando tecnologia para superar os sistemas de segurança das bancas organizadoras.
A continuidade da apuração e o fortalecimento do combate reforçam a necessidade de aprimorar os controles nos processos seletivos públicos no país para coibir fraudes e assegurar transparência.
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Fonte: g1.globo.com
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Fonte: g1.globo.com

