Casa, filhos e renda: mulheres recorrem ao próprio

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Casa, filhos e renda: mulheres recorrem ao próprio negócio para conciliar a rotina

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Antes de se consolidar como negócio, o nanoempreendedorismo feminino no Brasil tem funcionado, em muitos casos, como uma estratégia de adaptação à realidade econômica e social. É o que mostra uma pesquisa inédita do Consulado da Mulher, em parceria com a Vert.se e a Be.Labs, que analisou as condições em que essas atividades são desenvolvidas.

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Não se trata de pequenos negócios no sentido tradicional, mas de uma engrenagem de sobrevivência — marcada pela informalidade, pela sobreposição de jornadas, pela baixa possibilidade de crescimento e pela falta estrutural de apoio.

“O que encontramos não foi um grupo de empreendedoras no sentido tradicional”, diz a diretora-executiva do Consulado da Mulher, Adriana Carvalho. “Foi um contingente de mulheres criando soluções econômicas em um cenário de limitações”.

Nanoempreendedores são pessoas físicas que atuam em pequena escala, com faturamento anual de até R$ 40,5 mil, como trabalhadoras informais ou autônomas. Criada pela reforma tributária, a categoria reduz burocracias, dispensa CNPJ e garante isenção do novo imposto sobre consumo como forma de incentivar a formalização.

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O levantamento foi realizado em duas etapas, com 120 mulheres em grupos qualitativos e 371 participantes em um questionário nacional, e indica que esse “empreender” quase sempre começa antes do negócio: começa na vida.

Mais de 85% dessas mulheres têm filhos, e 29% cuidam de três ou mais. Mais da metade convive com crianças em idade escolar ou pré-escolar. Ao mesmo tempo, muitas assumem responsabilidades com outros membros da família, especialmente idosos.

Não por acaso, 61% têm entre 30 e 49 anos — faixa associada à chamada geração sanduíche, marcada pela sobreposição de demandas de cuidado.

“Essa mulher está no auge da pressão de tempo”, afirma Adriana. “Ela não tem margem. Então, o trabalho precisa caber na vida — e não o contrário. Com o empreendedorismo, elas têm autonomia para decidir: ‘no dia tal, não vou aceitar a encomenda’ ou ‘não vou fazer porque tenho outra prioridade’”.

Essa dinâmica ajuda a explicar por que o empreendedorismo surge menos como escolha e mais como adaptação.

Para 75% das entrevistadas, abrir o próprio negócio foi uma resposta direta a crises como desemprego, queda de renda, maternidade ou dificuldade de conciliar um emprego formal com a rotina doméstica.

Mesmo quando existe a possibilidade de um emprego formal, ele não elimina o problema. A origem da sobrecarga não está apenas no mercado de trabalho, mas na estrutura social.

“Há uma ideia de que é uma escolha ficar em casa empreendendo. Não é”, diz Adriana. “É o que cabe dentro de uma rotina em que tudo depende dela.”

A pesquisa também evidencia recortes raciais e sociais. Segundo o levantamento, 71% das nanoempreendedoras são mulheres negras, proporção superior à observada no empreendedorismo feminino em geral.

E diferentemente do estereótipo, segundo a pesquisa, o grupo não é marcado por baixa escolaridade. Quase 40% têm ensino superior completo ou pós-graduação.

“Elas têm formação, mas não têm condições de permanecer no mercado”, diz Adriana. “O problema não é preparo. É sustentação — especialmente pela falta de creches e políticas públicas de cuidado.”

Faturamento

Essa ruptura entre formação e inserção se reflete na renda. Embora 78% dos negócios faturem até R$ 3 mil por mês e 83% das famílias vivam com até três salários mínimos — sendo mais da metade abaixo de dois.

Para Adriana, os dados indicam uma fragilidade estrutural: o faturamento do negócio frequentemente se confunde com a renda familiar. Em mais da metade dos casos, não há separação entre finanças pessoais e do negócio. Custos operacionais, tempo de trabalho e despesas indiretas não entram no cálculo.

“O dinheiro entra e sai no mesmo lugar”, afirma Adriana. “E isso cria uma sensação de ganho que não corresponde à realidade.”

O resultado é um modelo de subsistência, com baixa capacidade de acumulação e crescimento limitado — um retrato do chamado “piso pegajoso”, que mantém essas mulheres na base da pirâmide econômica.

Ainda assim, os negócios apresentam longevidade. Mais de 78% existem há mais de três anos, 41% ultrapassam seis anos e cerca de 20% têm mais de uma década de atividade.

Grande parte se concentra em atividades de baixa barreira de entrada e compatíveis com a rotina doméstica. O setor de alimentação reúne 51% dos casos. Somados alimentação, artesanato, costura e manufatura, predominam atividades manuais e intensivas em trabalho.

Jornada exaustiva

Mais de 60% dedicam mais de cinco horas diárias ao negócio, e 31% trabalham mais de oito horas por dia. Quando somadas às atividades de cuidado — às quais 37% destinam mais de cinco horas diárias —, as jornadas podem ultrapassar 10 horas por dia.

Mais da metade afirma trabalhar mais hoje do que quando tinha emprego formal.

“Elas trabalham o tempo inteiro”, diz Adriana. “A flexibilidade existe, mas vem acompanhada de uma carga contínua.”

A pesquisa também identificou impactos na saúde em três dimensões: mental, física e social.

Na saúde mental, 59% relatam ansiedade, estresse ou depressão, e 44% afirmam que esses quadros surgiram após o início do negócio. A instabilidade da renda e a responsabilidade integral pela sustentação da casa aparecem como fatores centrais.

Na saúde física, 46% relatam dores ou limitações, principalmente na coluna, pescoço, pernas e braços — padrão associado a atividades repetitivas e longas jornadas sem suporte ergonômico.

Já na dimensão social, a pesquisa aponta o papel das redes de apoio informais. Mais de 80% se identificam como cristãs e, para 92%, a fé é um elemento importante para lidar com as dificuldades do negócio.

Em muitos casos, a igreja também funciona como espaço de sociabilidade e apoio prático, sendo citada por 53% como canal de divulgação e venda de produtos.

Apesar de cumprirem um papel relevante no cotidiano dessas mulheres, as redes informais têm alcance limitado quando se trata de garantir estabilidade e crescimento dos negócios.

Dificuldade de formalização

Ainda de acordo com a pesquisa, a formalização ainda avança de forma limitada. Cerca de 44% estão formalizadas, enquanto 47,7% permanecem na informalidade.

Entre os principais obstáculos estão o custo fixo, citado por aproximadamente um terço das entrevistadas, além da insegurança em relação à estabilidade da renda.

Entre as mulheres que participaram de programas de capacitação oferecidos pelo Consulado da Mulher, os resultados indicam mudanças relevantes.

Nesse grupo, 83% relataram aumento de renda, 66% passaram a se considerar mais independentes financeiramente e mais de 80% apontaram avanços no desenvolvimento pessoal e profissional. Além disso, 70% afirmaram ter conseguido melhorar o equilíbrio entre trabalho e família.

Segundo Adriana, o impacto vai além da renda.

“O que muda é a forma como elas se enxergam. Elas deixam de se ver como alguém que faz um complemento de renda e passam a se reconhecer como alguém que tem um negócio.”

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Fonte: g1.globo.com

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Fonte: g1.globo.com

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