O cineasta pernambucano Kleber Mendonça Filho adaptou em 2003 uma lenda urbana soviética para o curta-metragem “Vinil Verde“, que se tornou seu primeiro sucesso internacional ao ser selecionado para a Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes em 2005. O filme utiliza uma narrativa construída a partir de fotografias e explora uma trama ambientada em Recife, na qual uma menina recebe discos de vinil proibidos que desencadeiam consequências para a mãe.
Na época, Kleber trabalhava como jornalista e crítico de cinema no Jornal do Commercio, em Recife, e foi apresentado à lenda por sua então namorada, a cineasta ucraniana Bohdana Smyrnova. Eles se conheceram em 2002 durante um festival em Belo Horizonte e decidiram codirigir o projeto. A história tem origem em tradições soviéticas que alertam sobre a desobediência a regras, usando a imagem de um disco verde cujo som não pode ser ouvido.
A inspiração para a forma do curta veio de filmes como “La Jetée” (1962), de Chris Marker, conhecido por sua narrativa em imagens fotográficas, e “Jugular” (1998), da brasileira Fernanda Ramos. “Vinil Verde” utiliza seis rolos de filme colorido com 36 poses cada, montados de forma a construir uma atmosfera de suspense e terror psicológico, sem recorrer a efeitos externos ou muitos personagens.
Além do contexto soviético, o filme também remete ao fenômeno dos “stilyagi”, grupo que copiava discos ocidentais em chapas de raio-x durante o regime totalitário, o que conferiu um tom sombrio e simbólico ao vinil verde na trama. A trilha sonora foi composta pelo músico Silvério Pessoa, que criou uma peça com tom soturno para acompanhar o curta.
A produção contou com uma equipe reduzida. Além de Mendonça e Smyrnova no roteiro, participaram o cineasta Daniel Bandeira na edição, as atrizes Verônica Alves e Gabriela Souza, e a artista e produtora executiva Isabela Cribari. A filmagem ocorreu no apartamento das atrizes em Recife. Smyrnova permaneceu no Brasil por pouco tempo e, apesar da codireção, seu crédito oficial ficou restrito ao roteiro e agradecimentos, enquanto Mendonça assinou a direção.
“Vinil Verde” estreou no Festival Internacional de Curtas de São Paulo em 2004, e venceu prêmios nos festivais de Brasília (2004) e Recife (2005). Para especialistas, o filme já trazia elementos característicos do trabalho posterior de Mendonça, como o uso de espaços restritos, poucos personagens e a criação de uma atmosfera inquietante a partir de enquadramentos e som.
A narrativa do curta aborda temas como o amadurecimento e a complexidade das relações entre gerações, simbolizada pela criança que desacata as regras impostas pela mãe, resultando em um processo de perda gradual. Pesquisas apontam ainda interpretações feministas na luta pela autonomia da filha, além do controle e desejo presentes em uma proibição simples, a do toque no disco verde.
Mendonça relaciona o filme à lembrança pessoal da ausência materna, pois sua mãe havia falecido pouco antes da produção. O filme é visto como uma expressão da cultura e alma de um povo em um momento, conectando a atmosfera recifense à memória soviética por meio da cor e temperatura locais.
“Vinil Verde” permanece em exibição constante mesmo após 20 anos e consolidou a passagem de Kleber Mendonça Filho do jornalismo para o cinema, abrindo caminho para produções que alcançaram reconhecimento mundial, como seu longa “O Agente Secreto”, indicado a quatro categorias do Oscar.
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Fonte: g1.globo.com
Imagem: s2-g1.glbimg.com
Fonte: g1.globo.com

