O álbum “Pesadelo ambicioso”, lançado em 23 de fevereiro, reúne Fausto Fawcett e o coletivo Chelpa Ferro para traduzir a “náusea do absurdo brasileiro” por meio de uma linguagem sonora que mistura música eletrônica e texto urbano. A obra expõe o caos do Rio de Janeiro em uma colagem sonora que alia experimentações sonoras a versos de Fawcett.
Formado em 1995 no Rio de Janeiro, o coletivo Chelpa Ferro é composto pelo escultor Barrão, o pintor Luiz Zerbini e o editor de cinema Sergio Mekler. Desde então, o grupo tem se dedicado a aproximar as artes plásticas da música eletrônica, criando paisagens sonoras que refletem os ruídos e clamores da cidade.
O álbum apresenta treze faixas gravadas entre 2021 e 2025, com produção de Chelpa Ferro e do músico Thiago Nassif. A proposta é desestruturar a música tradicional por meio de sons experimentais, ruídos urbanos e camadas eletrônicas que dão forma a uma narrativa caótica e inquietante.
Os textos do disco são adaptados do livro homônimo lançado por Fausto Fawcett em 2022, que reúne escritos para eventos artísticos e para uma instalação realizada pelo Chelpa Ferro em Brasília, no mesmo ano. A ligação entre obra literária, instalação multimídia e produção musical promove uma imersão na atmosfera pós-pandemia, marcada pelo desencanto e pela sensação de instabilidade.
Fausto Fawcett, conhecido por sua escrita e composição voltadas para a vida urbana carioca, usa no álbum uma linguagem marcada pelo existencialismo e pela crítica social. As letras revelam uma visão intensa e indagadora da realidade local, explorando temas como a violência, o absurdo e a precariedade das relações humanas.
Musicalmente, o disco explora diferentes referências. A faixa “Forasteiro mental” remete ao estilo do álbum de estreia de Fawcett com o grupo Robôs Efêmeros, lançado em 1987. Já “Funk insinuante” destaca o peso do batidão, elemento central na evolução da música carioca desde os anos 1990.
Na faixa “Candeia Stones”, o uso de ruídos e batidas tenta estabelecer uma ponte entre o samba do compositor Candeia e o rock dos Rolling Stones. Apesar disso, os sons experimentais abafam o tradicional choro da cuíca, evidenciando o contraste e o conflito presentes no projeto.
O disco mantém a voz de Fawcett em destaque durante toda a obra, com um tom que pode ser interpretado como apocalíptico, sobretudo em “Demônios da insignificância”. O conjunto sonoro cria uma ambientação que traduz a tensão e o desconforto do espaço urbano contemporâneo.
O resultado final é uma obra que capta o desencanto de um mundo em desconstrução, ao reunir a verborragia urbana do poeta e a linguagem sonora ruidosa do coletivo. “Pesadelo ambicioso” funciona como um grito atento às transformações sociais e culturais do Rio de Janeiro e do Brasil nos anos 2020.
O álbum está disponível em formato digital e também em LP físico, reforçando o caráter experimental e artístico do projeto, que provoca reflexões sobre a cidade, o tempo atual e as linguagens musicais contemporâneas.
—
Palavras-chave relacionadas: Fausto Fawcett, Chelpa Ferro, Pesadelo ambicioso, música eletrônica experimental, arte sonora, ruídos urbanos, literatura e música, Rio de Janeiro, pós-pandemia, crítica social, arte contemporânea, Thiago Nassif, som noise, cultura carioca.
Fonte: g1.globo.com
Imagem: s2-g1.glbimg.com
Fonte: g1.globo.com

