Uma investigação da BBC revelou uma rede internacional de homens que gravam mulheres às escondidas durante saídas noturnas e vendem os vídeos em plataformas digitais para obter lucro. A prática foi registrada em cidades como Manchester, Londres, Oslo, Miami e Bangkok, onde câmeras são posicionadas para captar imagens de ângulos baixos, frequentemente sem consentimento.
Os vídeos, conhecidos como “caminhadas” ou “conteúdo de vida noturna”, são publicados em plataformas como YouTube, TikTok, Facebook e Instagram, acumulando bilhões de visualizações nos últimos três anos. As imagens focam sobretudo mulheres usando vestidos e saias, mostrando muitas vezes partes íntimas sem autorização.
Durante a apuração, a BBC identificou mais de 65 canais disseminando esse tipo de conteúdo, com visualizações que ultrapassam três bilhões. Muitas das mulheres filmadas desconhecem a gravação e expressam medo e vergonha ao descobrir que os vídeos circulam amplamente na internet.
Na investigação, a BBC localizou quase 50 mulheres em vídeos e constatou que o conteúdo é produzido por grupos organizados. Em Manchester, por exemplo, repórteres flagraram homens, incluindo o sueco Florjan Reka e seu irmão Roland, utilizando câmeras escondidas durante as saídas noturnas. Eles são responsáveis por diversos canais com milhões de visualizações.
Outro homem identificado foi o motorista de táxi Dean Hill, que filmava as mulheres próximas a clubes da cidade. Hill negou ter cometido irregularidades, afirmando que suas gravações são feitas em público, sem foco em partes íntimas, e que seu conteúdo não possui conotação sexual.
A legislação do Reino Unido considera legal filmar em espaços públicos, mas especialistas apontam que este tipo de conteúdo está em uma “zona cinza” da lei, podendo se enquadrar em assédio, voyeurismo ou abuso, especialmente quando as imagens são usadas para lucro e sem consentimento. Em 2024, a polícia de Manchester prendeu um homem suspeito de assédio com vídeos semelhantes, mas os processos foram limitados pela legislação vigente.
A BBC também flagrou comentários misóginos nos vídeos, evidenciando ambiente de hostilidade contra as mulheres filmadas. Muitas relatam mudanças em suas rotinas diárias, com medo de sair à noite e paranoia sobre possíveis gravações.
As plataformas digitais reagiram variadamente à denúncia. O YouTube desativou duas contas vinculadas aos suspeitos após a divulgação da investigação, enquanto o TikTok removeu quatro canais. O Facebook e o Instagram ainda mantêm grande parte do conteúdo ativo, apesar de afirmarem ter retirado publicações que infringem suas políticas.
A ministra do Interior do Reino Unido, Shabana Mahmood, afirmou que o governo não tolerará o uso de novas tecnologias para promover violência e assédio contra mulheres e meninas. No entanto, especialistas afirmam que o combate ao problema enfrenta barreiras legais e técnicas, o que dificulta a punição e remoção total dos conteúdos.
Além dos vídeos tradicionais, a BBC apontou para o uso de ferramentas digitais para a criação de imagens íntimas falsas, ampliando o impacto negativo desse tipo de exploração.
Para muitas das mulheres afetadas, a divulgação e comercialização das filmagens sem consentimento representa uma invasão de privacidade e um risco à segurança pessoal. Grace e Sophie (nomes fictícios), filmadas em uma noite comum em Manchester, relatam que o medo alterou suas vidas e que continuam preocupadas com a possibilidade de novas divulgações.
A investigação da BBC expõe um fenômeno global de exploração digital em espaços públicos, cuja amplitude ainda não foi totalmente medida, e sinaliza a necessidade de atualização das leis e maior controle das plataformas para proteger a privacidade e a segurança das mulheres.
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Palavras-chave: vídeos sem consentimento, filmagens clandestinas, assédio digital, voyeurismo, redes sociais, segurança digital, legislação do Reino Unido, proteção à privacidade, exploração online, conteúdo ilegal, plataformas digitais, direitos das mulheres, abuso digital, filmagem em espaços públicos
Fonte: g1.globo.com
Imagem: s2-g1.glbimg.com
Fonte: g1.globo.com

