Aplicativos com inteligência artificial têm oferecido a pessoas cegas uma nova forma de autoavaliação visual, mudando a relação dessas pessoas com sua própria imagem e aparência. Ferramentas como o Be My Eyes utilizam reconhecimento de imagens e processamento inteligente para fornecer descrições detalhadas e feedback sobre o visual dos usuários, um recurso que ganhou destaque no último ano.
Pessoas cegas historicamente dependem de relatos alheios para informações sobre sua aparência. Agora, a tecnologia permite que elas recebam avaliações diretas sobre cuidados estéticos e estilo, como apontou Lucy Edwards, criadora de conteúdo cega que usa o Be My Eyes para analisar sua pele e maquiagem. Para Edwards, a IA funciona como um “espelho virtual” que oferece uma nova perspectiva sobre sua imagem.
Esses aplicativos empregam algoritmos que avaliam o usuário com base em padrões tradicionais de beleza, indicando o que deveria ser alterado para atender a esses critérios. Segundo a pesquisadora Helena Lewis-Smith, da Universidade de Bristol, esse tipo de feedback pode impactar a satisfação corporal, já que a comparação constante com padrões tradicionais pode aumentar a insatisfação.
A Envision é uma das pioneiras no desenvolvimento de tecnologias que usam IA para ajudar cegos a interagirem com o ambiente visual. Seu CEO, Karthik Mahadevan, explicou que, inicialmente, os sistemas ofereciam apenas descrições básicas, mas agora fornecem análises mais completas, usadas inclusive para orientar escolhas de maquiagem e vestuário.
Essas ferramentas ampliam o acesso das pessoas cegas a informações antes indisponíveis, mas levantam dúvidas sobre o impacto emocional e psicológico dessas avaliações. O viés presente nos dados de treinamento das IAs tende a privilegiar padrões eurocêntricos e idealizados, fator que pode gerar inseguranças e insatisfação entre os usuários.
Além disso, a IA pode gerar descrições imprecisas, fenômeno conhecido como “alucinação”, quando informações incorretas são apresentadas como verdadeiras. Essa limitação exige cautela no uso das ferramentas e pode afetar negativamente a autoimagem, conforme observou o próprio Mahadevan.
Alguns aplicativos indicam a presença de agentes humanos para checar a precisão das descrições quando solicitado, mas na maioria das vezes a análise é inteiramente automatizada. A falta de pesquisas aprofundadas sobre os efeitos dessas tecnologias no bem-estar emocional de pessoas cegas reforça a necessidade de mais estudos.
Especialistas apontam que a inteligência artificial ainda não compreende totalmente o contexto social e emocional por trás da imagem corporal, limitando a qualidade do feedback fornecido. Para pessoas cegas, essa falta de contexto pode dificultar a construção de uma imagem corporal positiva e realista.
Apesar dos desafios, muitos usuários consideram a tecnologia uma forma de empoderamento, ampliando sua autonomia e autoconhecimento. Lucy Edwards ressalta que, embora a experiência não substitua a visão, a IA oferece o recurso mais próximo de um reflexo visual que ela já teve.
O avanço dessas ferramentas indica uma transformação na forma como pessoas cegas podem se relacionar com sua aparência e o mundo visual. Com o desenvolvimento contínuo da inteligência artificial, é esperado que esses aplicativos se tornem mais precisos e sensíveis às necessidades emocionais dos usuários.
Mesmo com os riscos envolvidos, a tecnologia oferece novas possibilidades para inclusão e autonomia, exigindo, porém, acompanhamento cuidadoso para minimizar impactos negativos e maximizar benefícios para a comunidade cega.
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Fonte: g1.globo.com
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