O veterinário Luís Fernando Laranja Fonseca deixou em 2002 seu cargo na Universidade de São Paulo (USP) para atuar na Amazônia, criando fazendas de gado com métodos que buscam reduzir o desmatamento e minimizar impactos ambientais. A partir de Alta Floresta (MT), ele desenvolveu projetos de pecuária sustentável para enfrentar o crescimento do consumo mundial de carne e os danos associados à pecuária extensiva na região.
Fonseca, com 58 anos, retornou a São Paulo e coordena o Programa de Agricultura e Meio Ambiente da ONG WWF-Brasil, além de administrar a Caaporã, empresa que gerencia 20 mil hectares em seis fazendas no Mato Grosso, Tocantins e Bahia. Seu trabalho foca na recuperação de pastagens degradadas por meio do plantio de árvores e uso de leguminosas para melhorar a fertilidade do solo e acelerar o ganho de peso do gado.
O método adotado reduz o tempo necessário para o abate de aproximadamente quatro para dois anos, diminuindo a emissão de metano, um gás de efeito estufa produzido durante a fermentação entérica dos animais. Esse processo contribui para uma redução superior a 40% na pegada de carbono da carne produzida, segundo Fonseca.
A produção tradicional na Amazônia, com baixa produtividade (0,73 animal por hectare), utiliza grandes áreas de pastagem e fomenta o desmatamento. A pecuária intensiva defendida por Fonseca exige maior investimento técnico e tecnológico, confinamento parcial dos animais e manejo do solo. Ele argumenta que essa mudança pode liberar milhões de hectares para recuperação florestal, ajudando o país a cumprir compromissos ambientais.
O Brasil é o segundo maior rebanho bovino do mundo e o quinto maior emissor de metano, sendo a pecuária responsável por 98% das emissões do setor agropecuário. Os dados do MapBiomas mostram que as áreas de pastagem na Amazônia aumentaram 363% entre 1985 e 2023, acompanhando o avanço do desmatamento.
Pesquisadores como André Pereira de Carvalho, da Fundação Getúlio Vargas, reconhecem o potencial ambiental e socioeconômico do modelo aplicado por Fonseca, que alia segurança alimentar à prestação de serviços ambientais, como conservação da biodiversidade e da água. Silvia Ferraz Nogueira De Tommaso, da FIA Business School, reforça que eliminar a pecuária sem considerar seus efeitos causaria problemas sociais e econômicos.
Diante da perspectiva de aumento de 10% no consumo global de carne bovina até 2033, segundo OCDE e FAO, Fonseca considera inviável a desaceleração do consumo e também vê limites na expansão da carne cultivada em laboratório, devido a custos e aceitação do consumidor. Para ele, a resposta imediata está na transformação do sistema de criação de gado, apesar dos obstáculos culturais, econômicos e técnicos.
O acesso ao crédito para recuperação de solo e a resistência dos produtores ao modelo intensivo são citados por Fonseca como dificuldades para a adoção em larga escala. Para incentivar a mudança, a Caaporã busca gerar receita com a venda de créditos de carbono, desenvolvendo metodologia própria junto à certificadora global Verra.
Empresas como a Minerva Foods já compram parte da produção da Caaporã e promovem práticas de pecuária regenerativa entre fornecedores. A diretora global de Sustentabilidade da Minerva, Marta Giannichi, afirma que o modelo é viável economicamente e tem potencial de expansão para outros biomas.
Na COP30, ocorrida em 2023 em Belém, houve protestos contra a pecuária, ainda apontada como responsável pelo desmatamento. No entanto, iniciativas como Agrizone da Embrapa mostram que o setor busca propostas sustentáveis, embora o controle na cadeia produtiva e a transparência ainda apresentem falhas.
Estima-se que 40% do rebanho bovino brasileiro esteja na Amazônia, com 76% da carne produzida destinada ao mercado interno. Dados indicam que apenas 54% da carne consumida no Brasil vinda da Amazônia atende critérios adequados de sustentabilidade, enquanto 80% das exportações seguem protocolos contra o desmatamento, especialmente devido a exigências da União Europeia.
O desafio para a pecuária amazônica, segundo Fonseca, está na ampliação de modelos que unam produtividade e preservação, minimizando impactos ambientais e agrícolas, para atender a uma demanda crescente por carne sem ampliar o desmatamento.
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Palavras-chave: pecuária sustentável, desmatamento Amazônia, emissão de metano, recuperação de pastagens, criação de gado, Caaporã, pecuária intensiva, carbono na agricultura, carne bovina, agropecuária Brasil, impacto ambiental, créditos de carbono, produção de carne, WWF-Brasil, Minerva Foods
Fonte: g1.globo.com
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Fonte: g1.globo.com

